segunda-feira, 28 de maio de 2018

Why sometimes less is more - A dissertation on the love of music and other things


Nota: o post que se segue é escrito em inglês. Ainda não me decidi se o vou reescrever na nossa língua materna, mas, para os que não se importam com pontuação, gramática, contexto e outros pormenores que tais, podem sempre pegar no link do post (https://uncertainsmilex.blogspot.pt/2018/05/why-sometimes-less-is-more-dissertation.html) e ir ao Google Translate. Bem sei que se perde toda a intimidade... but that's the future, no? 😛


As some of you might know or have figured it out, I like to discover new music and a little more than a decade ago I found out my favourite way to do it: by reading blogs! I use to read a few blogs of people that wanted to share their music.

Now, for a short story:

In late 2013 while browsing around - can't really remember where - I found this brilliant piece of synth-pop:

Ranger by Me and Karen



This song really captivated me. It was one of those songs that I immediately wanted to share with my friends and father (which I did!) and made me look for whatever other songs these guys - Me and Karen (https://soundcloud.com/meandkaren) - had. 

4 songs. And that was it. Problem? They're all very good! So, predictably,  I kept listening to the same 4 songs very intensively for months and - now for a bit of trivia about me and her - by March of 2014, Cláudia and me were getting to know each other and "Ranger" was among the first songs I showed her. And expectedly enough, Cláudia, as a true lover of pop as it is, also was hooked on all of the songs by Me and Karen.

A few months later on an EP appeared on their Soundclound but alas... nothing more ever since. Cláudia and myself kept on listening to them but, naturally, the airplay had shifted to other things and Me and Karen songs went from recursive to frequent to occasional a year after.

Fast-forwarding to a few Saturdays ago: Me and Karen start playing - shuffle, how I love you sometimes - and we had that same reaction "Ohhh... this song!!" (and I also had a bit of a laugh trying to make Cláudia's forgotten mind about the name of the band) and I went to their Facebook and Soundcloud pages... nada! Nothing new to see.

But then, just a few days later, someone just contacted me:




 Michael Bartlett - one of the minds behind Me and Karen (the other being Karen, obviously)


Michael wanted me to know (and Cláudia, as well) he had made a new song under his new guise Bruce James!!

(https://soundcloud.com/brucejamestunes/plastic - a very cool synthwave tune!)

This was really nice of him and truly an unexpected coincidence given the story above! 😃 (and the reason that made me want to write this lengthy post)

Eventually we chatted up a bit and I found out they also doing more work in another band, a more progressive-rock act called Oh So Peligroso (https://soundcloud.com/ohsopeligroso), and other bits and pieces regarding his work.

It's funny how, sometimes, one doesn't realise the fact that showing someone appreciation  - even if by a inconsequent (!) like on a band Facebook page - of their work is important enough so they can continue sharing with us the fruition of their creations. I can surely understand why Michael approached me in the first place: it's much more easy to share with someone who has showed appreciation before. According to Michael, me and Cláudia were some of their non-family-and-friends fans. 

One thought came to my mind: a remembrance that not every artist gets instant recognition of their work, as good and relevant as it is (and should be). Along with it came the fact/judgement: having more ways and opportunity to show yourself to the world is not a guarantee that it will happen.

 As for me... I'd be very happy if someone would share the same fondness for these wonderful artists. 



segunda-feira, 21 de maio de 2018

Sam Smith na Altice Arena: A magia do soul-pop gospel


Por muitas palavras que pudesse utilizar, nunca nenhuma seria suficiente para descrever a intensidade e majestosidade que marcou este grande concerto de Sam Smith, o primeiro em nome próprio em Lisboa, último da tour “The Thrill Of It All” e a umas meras duas horas do dia do seu 26º aniversário.

Talvez por isso o artista tenha surgido com uma energia surpreendente e avassaladora, numa envolvente cinematográfica, sentado e dobrado sobre si mesmo num alçapão que surge lentamente desde dentro do palco, com o tema “Burning”, iniciado em acapella. Um tema pejado de espiritualismo, quase como um drama envagélico, algo que, de resto, se faz sentir bem ao longo de todo o álbum The Thrill Of It All. Eis um álbum que transborda emoção, que aborda temas como a miséria do amor, a tragédia, a prostração e a autopiedade. Dramático, angustiante e muito profético, recorrendo à presença constante de elementos religiosos e back vocals que remetem para o gospel, bastante mais presentes, devo referir, ao vivo do que no próprio álbum.



A voz de Sam é, tal como a sua presença, majestosa, rica, que nos enche a alma de dentro para fora, literalmente. Envolta em toda uma aura de charme e de romantismo, capaz de apaixonar qualquer coração mais mole, cada nota faz-nos sentir que aquele momento é uma questão de vida ou morte, especialmente as mais agudas e tão perfeitamente afinadas, que nos fazem sentir on the edge, verdadeiramente capazes de provocar arrepios.

Num tom totalmente diferente, bastante mais leve e expansivo, seguem-se dois dos seus temas mais conhecidos, “One Last Song” e a maravilhosa “Crazy”. Foi, no mínimo, mágico e comovente ver tanta gente a cantar em uníssono estes temas.

Porque Sam Smith é um cantor de baladas pop por excelência, não podíamos deixar de ter o prazer de ouvir as maravilhosas canções “Lay Me Down”, “Nirvana”, “Say It First” e “Midnight Train”. Sabem aquelas músicas tristes mas felizes ao mesmo tempo, que quase (ou não apenas quase) nos fazem chorar? É isso. Até mesmo o tema “Latch”, em colaboração com Disclosure e originalmente um tema mais disco e dançável, é aqui apresentada como uma balada de lounge, despojada de batidas e linhas de baixo low key.

Ainda que Sam mostre bastante a sua alma pop sombria, existe um outro lado: o pop mais funky, com bastantes influências RnB e eletrónica. Foi com essa promessa que surgiram temas como “Omen” (mais uma vez em colaboração com Disclosure), “Money On My Mind” e “Restart” – sendo estas duas últimas, na minha opinião, dois dos melhores e mais catchy temas do artista, muito inspiradas no pop dos anos 90.

Voltando ao clima espiritual, surge o tema “HIM”, uma representação da homofobia religiosa, genuinamente poderosa e comovente. Como que numa oração, Sam aborda – com um franco tom vocal de desolação – o tema da homosexualidade assumida, algo que, até agora, tinha mantido fora da sua carreira artística. Em “The Thrill Of It All”, Sam inclui este tema, num gesto de transparência total e desafiando a posição da igreja quanto a este assunto, declarando “Holy Father, we need to talk / I have a secret that I can’t keep / I’m not the boy that you thought you wanted / Please don’t get angry, have faith in me (…) It is him I love / It is him” – sendo assertivo na sua palavra final e ao assumir claramente a sua posição. A meio da canção, Sam deixa uma mensagem ao seu público, afirmando: “Escrevi esta canção como uma mensagem para todos os que estão a ouvir: Amor é Amor!”. Foi um dos momentos mais imponentes de toda a noite.

Por esta altura, o acumular de emoções já pesava. Desde as canções soul-pop mais baladadas, nostálgicas e muito amorosas, aos ritmos funk mais dançáveis, sempre com aqueles maravilhosos back vocals que deram a todo o concerto um poderoso sabor gospel, muitas lágrimas já tinham rolado. Mas ainda tínhamos espaço para mais um pouco.

E Sam não desiludiu. Para dizer – literalmente – adeus, presenteou-nos com um dos seus mais conhecidos singles, o cativante “Too Good At Goodbyes”, na qual nos convidou a cantar vezes sem conta o refrão, e onde se demorou a dar o seu adeus final… até, claro, ao momento do encore.

Um encore que contou com os temas “One Day At a Time”, “Stay With Me” – se ainda havia lágrimas para chorar, só faltavam mesmo estes temas – e “Pray”, para terminar esta noite em grande; um dos meus temas favoritos, absolutamente grandioso, poderoso, divinal. Diria até mesmo épico.

E assim termina o espetáculo, voltando o artista ao ponto em que começou, no alçapão, sentado na sua cadeira solitária, com as mãos entrelaçadas, erguido sobre si mesmo como quem carrega em si a dor do mundo, desaparecendo para dentro do palco.

Sam Smith é a personificação perfeita de artista pop, reunindo fatores essenciais tais como um carisma incrível, simpatia extrema e humildade, uma voz brutal (capaz de dominar falsetes com uma facilidade impressionante) e uma presença incrível em palco. Fez-me querer continuar a ouvir, mesmo depois do concerto. E foi isso mesmo que fiz.


Uma palavra para resumir esta noite? É uma palavra muito, muito simples: linda.

Crítica escrita para o site Echo Boomer.


terça-feira, 8 de maio de 2018

X-Wife no Estúdio Timeout: À descoberta do novo e o rematar do saudosismo

X-Wife no Estúdio Timeout: À descoberta do novo e o rematar do saudosismo

O dia cinzento e marcado pela chuva matinal deu lugar a uma noite onde nos reencontrámos com os X-Wife num Estúdio Timeout algo composto, mas sem estar a abarrotar, em que a pronúncia do Norte era regularmente ouvida entre algumas das pessoas que foram testemunhar este regresso da banda composta por João Vieira, Rui Maia e Fernando Sousa. 

O mote foi o lançamento do novo álbum, homónimo, mas o sexto numa discografia iniciada já num longínquo 2003 (com o EP Rockin’ Rio) é que não foi descurada, antes pelo contrário. Numa apresentação despretenciosa, mas muito bem disposta, a banda veio relembrar-nos e reafirmar que, apesar da pausa prolongada – entre Infectious Affectional (álbum anterior) e este distam sete anos -, os X-Wife continuam a ser donos e senhores de melodias viciantes que acabam por nos conquistar o ouvido muito facilmente. 

Abrindo as hostes com “Lights Out” e “Sweet Paranoia”, a mensagem não podia ser mais clara: sim, a assinatura dos X-Wife neste álbum mudou um pouco, mas a génese continua a mesma. As melodias tornaram-se mais imediatas e, nestas novas composições, é possível notar influência dos projetos paralelos que os membros dos X-Wife integraram entretanto (White Haus e Mirror People, por exemplo). De notar que este novo X-Wife marca uma sonoridade mais diversificada, onde temos a presença do saxofone, por exemplo. 

Na apresentação ao vivo, o coletivo não desiludiu e veio acompanhado de uma secção de sopros (trompete e saxofone), vozes secundárias e, na bateria, Gil Costa – que já acompanhou João Vieira no último álbum dos White Haus. A escolha pareceu-nos acertada; as prestações foram muito bem conseguidas e a instrumentação extra nos temas novos acabou por pôr muita gente a dançar. 

À terceira canção da noite, os X-Wife voltaram a pisar território antigo, até porque, mais do que uma apresentação de um novo álbum, há todo um historial, que, após uma pausa prolongada, merece ser relembrado. “Keep on Dancing”arrebitou um público curioso pelo novo álbum, mas muito saudosista dos êxitos mais antigos. 

Não obstante, pela reacção ao single “This Game” e “Boom Shaka Boom” (já com alguma rotação nas rádios), é fácil de perceber que facilmente conquistaram quem lá estava para vê-los, fosse fãs recentes ou mais antigos. Fácil de perceber foi também o prazer que João Vieira e companhia dedicavam a cada prestação. O baterista Gil Costa esteve bastante bem, tendo tido um ou outro momento de protagonismo, como em “Coconuts”. O regresso era também motivo de festejo e foi dessa forma que os X-Wife nos foram levando ao longo da noite. À medida que iam apresentando o novo álbum, eram intercaladas canções das obras anteriores, para delícia de quem já os acompanha há mais tempo. Temas como “Ping Pong”, do 2º álbum Side Effects, ou “Fireworks”, do 3º álbum Are You Ready For The Blackout?, foram efusivamente recebidos e colmataram a saudade de ver os X-Wife ao vivo novamente. 

Para o final ficou guardado um trio de energia: o single “ Movin’ Up” – lançamento singular do grupo em 2015 que faz parte da banda sonora do jogo FIFA 16 – e, já no encore, “Action Plan”, do álbum de estreia Feeding the Machine, e um clássico para muita gente da plateia, finalizando com “That’s Right” numa versão bastante pujante. And that’s right… os X-Wife voltaram. E recomendam-se.

Artigo original no site Echo Boomer.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Adriana Calcanhotto – A Mulher do Pau Brasil

Do outro lado do atlântico, chegam-nos sons e ritmos quentes, pautados pela leveza de quem vive uma vida livre. Adriana Calcanhotto é um exemplo vivo isto, tendo conquistado o seu público irmão com a sua voz de timbre caloroso e suave, com as suas obras musicais que nos embalam e as letras que nos deixam um quentinho no coração, que nos fazem sorrir, numa onda “bossa nova pop” muito própria. 

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A sua carreira teve início nos anos 90, mas o espectáculo que deu em Lisboa, mais precisamente no Centro Cultural de Belém, no passado dia 10 de Abril, foi uma estreia. “A Mulher do Pau Brasil”, designação dada a este espectáculo inédito, nasce do seu trabalho enquanto Embaixadora da Universidade de Coimbra e de toda uma carreira que reflecte e se debruça sobre literatura e história. Porque para além de artista, Adriana é claramente uma mulher de palavras, compreendendo e utilizando o seu poder transformativo e aliando-o à música. 

A expectativa e curiosidade eram, assim, de elevado nível. Todo um público sedento por um espectáculo que prometia formou uma fila gigantesca que não só encheu, como quase transbordou, o Grande Auditório. Envolta num ambiente misterioso e provocativo, a artista surge balanceando-se numa cama de rede enorme suspensa sob o palco, acompanhada por Gabriel Muzak, na guitarra e Ricardo Dias Gomes no piano e baixo. Mulher do Pau Brasil foi, justamente, o tema de abertura, homónimo do espectáculo – esta audiência teve o privilégio de escutá-lo em primeira mão –, inspirado nos movimentos modernista e antropófago brasileiros dos anos 20, cujo o título é inspirado na obra Pau Brasil, de autoria do poeta Oswald de Andrade, editado em 1925. 

Em entrevista, Adriana afirmou que o seu principal foco, para este espectáculo, seriam a dor, o luto e a luta. E é isso mesmo que transmitem estes dois primeiros temas, tanto A Mulher do Pau Brasil quanto a se seguiria, A Dor Tem Algo de Vazio - poema de Emily Dickinson, com título homónimo. É verdadeiramente incrível o quão bem consegue a artista transpor três temas tão complexos da vida em notas musicais. A forma intensa e quase desesperada com que canta a frase “de dor”, no refrão, não deixa nada por dizer. 

Mas nem só de temas novos se formou este espectáculo. Adriana prestou homenagens a alguns outros cantores conhecidos, tais como Maria Bethânia – com o tema Mortal Loucura –, Vinicius de Moraes – com o tema Nature Boy – e Chico Buarque – com o tema Caravanas. De entre as melodias mais conhecidas, tivemos o prazer de voltar a ouvir clássicos como Esquadros, Onde Andarás, Não Demora, Inverno, Devolva-me e as tão conhecidas Vambora e Fico Assim. Nomes grandiosos, músicos de excelência e temas clássicos que enriqueceram muito a experiência e, decerto, provocaram muita nostalgia. 


Chega com calma o tema Noite de São João – poema do heterónimo Alberto Caeiro proclamado por Adriana Calcanhotto, o que só tornou a noite ainda mais mágica e poética. Está aberto o caminho para mais um novo tema, O Que Me Cabe. Acompanhada de uma guitarra pautada ao ritmo bossa nova, e com um timbre de voz aveludado, Adriana embala-nos ao som de uma letra sofrida, na qual, novamente o tema da dor está muito presente, como se deixa entender, de resto, pela letra “Você não sabe, o que me cabe. No silêncio, dor. No escuro, dor. No espelho, dor.” 

De igual modo, nem só de música se fez este concerto, na medida em que houve longos e saborosos momentos de diálogo entre a artista e a plateia, criando um ambiente empático e envolvente. Foram diversos os momentos ao longo do espectáculo que Adriana partilhou histórias e inspirações, provocando emoções fortes entre o público, e arrancando algumas gargalhadas. 

Terminou esta noite sublime, com um encore muito especial. Tigresa (original de Caetano Veloso) e Fico Assim foram os dois temas escolhidos pela artista para se despedir. De notar um percalço que decorreu em plena canção Fico Assim: um simples erro por parte de um dos músicos despertou toda uma onda de riso na plateia. Adriana soube lidar com este momento com muita naturalidade e leveza, novamente interagindo com o público com humor, acabando assim por ser um momento que fez toda a diferença! Adriana prometia e, definitivamente, não desiludiu.   



quarta-feira, 28 de março de 2018

RODRIGO LEÃO & SCOTT MATTHEW NO CCB: QUANDO A MÚSICA TRADUZ O PARADOXO DA VIDA

A convite do Echo Boomer, tive o prazer de assistir ao mais recente concerto de Rodrigo Leão com Scott Matthew, numa última apresentação do trabalho em colaboração entre os dois artistas, "Life Is Long".

Fica aqui a crítica, da minha autoria, a este fabuloso concerto!

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Foi na passada quinta-feira, dia 22 de março, que o Grande Auditório do Centro Cultural de Belém se encheu de pessoas sedentas por um concerto que prometia aquecer a noite que se fazia sentir bem fria. Tratou-se do último concerto da digressão “Life is Long”, álbum de Rodrigo Leão em colaboração com Scott Matthew, que durou um ano e meio e que contou com quase 40 concertos – pelas palavras do próprio músico, num agradecimento tímido mas repleto de gratidão e satisfação. 

Foi, por isso, um momento especial, magnífico e, diria até, épico, pelo tom cinematográfico que já é apanágio do artista, muito bem acompanhado pela voz do timbre envolvente, dramático, aveludado e sólido de Scott Matthew. Este último acabou por ser o cantor convidado para a gravação deste álbum, depois do seu brilhante desempenho enquanto vocalista na faixa “Terrible Dawn”, que faz parte do álbum A Montanha Mágica, editado por Rodrigo Leão em 2011. Desde aí que a conversa entre os dois músicos nunca mais cessou. 

Rodrigo Leão é um Músico com M grande e uma dos compositores mais marcantes no panorama musical nacional. Multifacetado em termos de estilos musicais, que vão desde diversas bandas sonoras (destacar, em especial, o brilhante trabalho para a série portuguesa O Equador, em 2008, e um outro, não menos fantástico, trabalho na banda sonora do filme The Butler, em 2013), à música clássica contemporânea e, até mesmo, a algumas influências latinas e de pop alternativo, nunca abandona o dramatismo melódico, a teatralidade e a reflexão sobre temas que nos tocam a todos numa transposição da vida (e neste, caso, da morte) em notas musicais – tarefa que faz de forma exímia. 

É precisamente sobre um tema que nos toca a todos que se debruça o álbum Life Is Long: a Vida e a Morte. Assim, a efemeridade, a fugacidade do tempo e a natureza breve da vida, que deve ser vivida com serenidade, é neste álbum transposta para a música com uma crueza tal que chega a tocar no estoicismo (uma corrente filosófica que considera ser possível encontrar a felicidade desde que se viva em conformidade com as leis do destino, o que inclui a aceitação de que existe um destino comum e inevitável e que esse destino é a morte). 

O concerto abre com “Enemies”, faixa que prima pelo pop rock melódico, e que prendeu a atenção da plateia de forma arrebatadora. Arriscaria dizer que o conjunto garrido e exuberante desta faixa nos transporta até outra grande banda portuguesa, Ornatos Violeta. 
É tocada e cantada com paixão e com, lá está, muita garra. 

Depois de uma entrada tão enérgica, surge “Child”, uma canção simples mas absolutamente deliciosa, sempre com aquele toque nostálgico que é transversal às obras de Rodrigo Leão e, diria mesmo, simplesmente triste.

Segue-se “The Fallen”, uma das músicas em que eu, pessoalmente, considero que Scott tem uma das melhores prestações vocais. O seu timbre aveludado encheu o auditório e entrou, decerto, com muita suavidade nos ouvidos da audiência. As notas de violino, pela Viviena Tupikova, complementaram “The Fallen” com uma sensação de beleza eminente.

“Nothing Wrong” surge com uma imensa melancolia, mais uma vez, quase a tocar no desesperança e resignação, emoções que Scott tão bem traduz na sua forma de cantar, com um tom ligeiramente desesperante no final de cada estrofe (difícil transpor em palavras, pelo que se aconselha a audição da faixa do álbum), e de forma mais intensa na frase “They’re Over” no refrão. Aqui, especialmente o prolongamento de “Over”, a entrega total com que o canta faz-nos sentir o peso da angústia de ter perdido algo. 

Voltando aos temas do fatalismo, estoicismo e da resignação, aceitação da brevidade e efemeridade da vida, num tom muito “It is what it is” e “C’est la vie”, a faixa “That’s Life” surge como um expoente máximo desta perspetiva – como é, de resto, autoexplicativa parte da letra: “Now it’s over / That’s life / É a vida / C’est la vie / I’m getting any younger / But we try / That’s Life”. O tom melancólico e esta carta aberta, no fundo, à vida em si, faz com que esta seja uma das faixas mais bonitas do álbum e um dos melhores momentos deste concerto.

   

Após uma primeira parte bastante intensa, Rodrigo Leão brindou-nos com umas breves mas emocionantes palavras de agradecimento, momento que fechou com o tema instrumental “Empty Room”. Uma faixa inteiramente instrumental, com aquele tom cinematográfico que lhe é tão característico, e que nos proporcionou um verdadeiro oásis de calma e beleza no meio de um concerto repleto de emoções fortes. 

Para uma segunda parte, Scott Matthew saiu de cena, por momentos, para dar lugar à atuação da assemble dos 5 músicos: João Eleutério na guitarra e no baixo, Carlos Tony Gomes no violoncelo, Viviena Tupikova no violino e sintetizador, Francisco Gracias na bateria e Marco Alves no trombone e metalofone – e, claro, nunca esquecendo o músico principal, o brilhante Rodrigo Leão. 

Seguiram-se duas faixas puramente instrumentais, recheadas de teatralidade e energia. De destacar aqui a harmonia perfeita entre os músicos, que constantemente comunicavam entre si, com olhares, gestos, sorrisos e provocações, numa verdadeira dança de notas músicais atrevidas. 

Volta Scott ao palco, para nos brindar com uma das faixas que é das mais tristes, mas, também, das mais bonitas do álbum. Trata-se de “In The End”. Mais uma vez aqui muito presente o tema da efemeridade da vida, do Fim, de tudo e todos termos irremediavelmente esse Fim. A tristeza com que canta “As your last breath begins / Contently take it in / Cause we all get it in / The end” faz-nos mesmo relativizar tudo na vida quando nos deparamos com a morte. 

E é com um tom de mistério e enigma que começa a faixa “Unnatural Disaster” – um conjunto de estrofes bastante obscuras que desaguam num refrão refrescante e, até, esperançoso. De destacar aqui a brilhante prestação do trombone, por Marco Alves, que sem dúvida alguma encheu e enriqueceu muito esta faixa. Encheu-nos, também a nós, o coração.

Scott Matthew revela-se uma pessoa meio tímida, mas brincalhona, quando afirma perante o público que, agora, vai tocar uma das suas mais recentes composições. Foi, aliás, um privilégio para nós, ouvir em primeira mão esta faixa, visto que foi a primeira vez que estaria a tocar e cantar esta faixa em público. Uma melodia simples, em acústico, e com alguns enganos, notas erradas e falhas pelo meio – com as quais o cantor soube lidar com humor, provocando também risos por parte da plateia. Ainda a solo no palco, tivemos o prazer de cantar com Scott, uma cover da tão conhecida canção “I Wanna Dance With Somebody” de Whitney Houston. Foi um momento de envolvência genuína, com as centenas de pessoas que encheram o Grande Auditório do CCB a cantar em uníssono. 

De forma sorrateira entra mais uma faixa instrumental, na qual mais uma vez o trombone e o violino se destacam com as suas notas, numa dança atrevida entre os dois instrumentos. E chega a vez de “Terrible Dawn” – a primeiríssima canção gravada em colaboração entre Rodrigo Leão e Scott Matthew, em 2011. Foi com esta faixa que nasceu todo o trabalho de colaboração entre os dois artistas, foi um mote – no fundo, a música que estabeleceu o tom para o que estava para vir. Eis uma canção envolvente, com uma influência de Blues bastante marcada e com uma bateria e uma guitarra que se deixam arrastar ao longo de uma constante melodia em sintetizador. E se no álbum esta faixa está espetacular, no concerto não se ficou nada atrás.


E para contrariar essa ideia de efemeridade da vida que acaba por ser um tema geral do álbum, como que num paradoxo (e, afinal, não é a vida isso mesmo?), surge o single, “Life is Long”. O violino chora com Scott, que canta “Life, life is long / whoever thought that could be wrong / life is long Life” numa harmonia delicada e deliciosa.

   

E aqui termina este Fabuloso concerto (sim, com F grande). Errr… termina? 

Será que termina mesmo por aqui? 

Como é óbvio, não. Os músicos voltam para um encore, primeiro com uma faixa instrumental encantadora, esplêndida, com uma imponência e perfeição tal, que garanto-vos, muita gente (incluindo eu) ficou com lágrimas nos olhos. 

Seguiu-se a faixa “Abandoned”, que não integra o álbum Life is Long, sendo a mais recente colaboração entre os dois artistas, lançada em 2017. 

E quando já todos pensávamos que o concerto tinha mesmo terminado, eis que temos direito a mais um encore especial. Sendo o último concerto desta digressão, os músicos quiseram deixar a sua audiência de barriga cheia, presenteando-nos e fechando assim o concerto, repetindo o single “That’s Life”. Uma despedida mágica que nos deixou com um gostinho de uma melancolia feliz para terminar a noite. 

 Este concerto envolveu-nos e despiu-nos a alma. Ali, naquele momento, éramos só nós. Nós e a música, nós e a vida, nós e a morte. “Because That’s Life“.