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sexta-feira, 12 de abril de 2019

Bebel Gilberto – Voz de Veludo e muito improviso

Crítica elaborada para o site Echo Boomer




Onze anos após a sua última atuação em Portugal, na qual celebrou um aniversário, Bebel Gilberto – grande nome no panorama da música brasileira – voltou, este ano, a pisar dois palcos portugueses: primeiro no Porto (n’A Casa da Música), a 8 de abril, e depois em Lisboa, no dia 9 (no Teatro Tivoli BBVA). O Echo Boomer esteve lá para contar tudo em primeira mão e deixa um gostinho da boa energia de Bebel aos fãs que, por algum motivo, não puderam assistir. 

O espetáculo começou intimista, apenas com uma meia luz sob Guilherme Monteiro, guitarrista e amigo de longa data de Bebel. A entrada da artista fez-se acompanhar com uma sentida salva de palmas; surgiu a dançar de forma fluída, com um top brilhante, que apenas complementava o brilho natural que a artista já transpira pela sua presença. 

“Momento”, tema do álbum homónimo, de 2007, começou sorrateiro, abrindo o concerto. “Lisboa, meu amor”, começou por dizer, dando as boas-vindas ao público. Ao longo de todo o concerto, aliás, Bebel manteve uma comunicação fluída com o público, com pitadas de humor, inclusivamente deitando-se no palco e dizendo que foi algo que aprendeu com a grande Maria Bethania, fazendo-nos sentir como se estivéssemos em palco com ela. 

Extremamente expressiva, genuína e espontânea, transmitiu-nos uma autêntica sensação de warm welcoming, tal como é a música dela em geral. Solta, desprendida, carinhosa, simplesmente ela mesma numa entrega total ao momento. 

Com uma setlist definida mas com muita flexibilidade de desvio, flexibilidade essa partilhada com a plateia, Bebel cantou algumas faixas de improviso, como por exemplo “Lisboa boa noite (…) agora eu vou cantar uma música que tem mais um papaparapapapara; na verdade a Bebel põe papapa em todas as canções e todas as canções dela têm papapa, agora vai cantar comigo, se quiser me acompanhar nessa canção”. Também brincou muito com a gastronomia portuguesa, referenciando o bacalhau com natas numa das suas faixas de improviso, arrancando autênticas gargalhadas do público.

  

Ao longo do concerto, entre improvisos e risos, Bebel revisitou alguns dos seus clássicos de samba e bossa nova, que marcaram os momentos mais altos da sua carreira de 30 anos. É o caso das famosíssimas “Baby” e “Simplesmente”, também do álbum Bebel Gilberto – que colocou toda a plateia a cantar em uníssono e a sorrir com o tom enternecedor destas músicas – e a tropical “Aganju”, escrita pelo também reconhecido artista brasileiro Carlinhos Brown. 

Foi com emoção que Bebel falou do recente falecimento da sua mãe aos 81 anos, a também famosa cantora brasileira Miúcha, aproveitando para cantar alguns dos seus temas, em jeito de homenagem – como “Just One of Those Things” (com João Gilberto) e “Comigo É Assim” (com Tom Jobim). De álbuns mais antigos, temos “August Day Song”, “Mais Feliz”, “Sem Contenção” e “So Nice”, todas do álbum Tanto Tempo, lançado em 2000. 

Contámos ainda com uma cover de “Harvest Moon”, de Neil Young, – e, aqui entre nós, ficou a faltar uma das mais bonitas covers também já feitas pela Bebel: “Samba da Benção” (originalmente de Vinicius de Moraes). Afinal, a letra de “Samba da Benção” (“é melhor ser alegre que ser triste / A alegria é a melhor coisa que existe / É assim como a luz no coração / Mas pra fazer um samba com beleza / É preciso um bocado de tristeza / É preciso um bocado de tristeza / Senão não não se faz o samba não”) resume toda a aura musical da artista: uma felicidade serena que toca na tristeza e a necessidade de haver tristeza para haver beleza e composição de música. Mas, pelo charme de todo o concerto, não só pelas músicas em si como por todo o encanto enternecedor que a artista imprime na sua atuação, está perdoada por essa “falta”. 

Para encore, dois dos seus temas mais conhecidos, “Samba e Amor” – tema gravado com o seu tio Chico Buarque – e “Preciso Dizer Que Te Amo” – o seu primeiro tema gravado em estúdio, em 1986.

   

Bebel respira música e nota-se que esta é a arte que preenche a sua alma – não corresse a música no seu sangue, sendo filha de Miúcha e João Gilberto, e sobrinha de Chico Buarque. Bebendo das suas heranças, nunca desiludiu, contando com uma carreira sólida, estando o lançamento do seu próximo álbum previsto para este ano. 

No palco do teatro Tivoli BBVA, era só ela e o seu companheiro Guilherme – como o nome do espetáculo, de resto, indicava, “Voz e Violão”, a base eterna da bossa nova. E, de facto, não era preciso absolutamente mais nada para sairmos de lá com o coração cheio.


quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Tribalistas – 15 anos depois, é como se nunca tivessem parado de criar música

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Admitidamente impreparados, foi 15 anos depois do lançamento do seu primeiro álbum que a banda de música pop brasileira, Tribalistas, se apresentou pela primeira vez ao vivo em Portugal. Impreparados, pelo menos assim o admitem em várias entrevistas, os três artistas que compõem este trio, confessando que o primeiro álbum surgiu de forma totalmente espontânea e que, sem qualquer expetativa, vendeu qualquer coisa como cinco milhões de discos. Fazer música sempre foi algo espontâneo, não planeado, e fruto de uma paixão partilhada pelos três.

Corria o ano de 2003 quando o single “Velha Infância” chegou e veio para ficar, apaixonando corações do público português – para nunca mais ser esquecido. Este é, no entanto, apenas uma das 56 músicas que Marisa Monte, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes compuseram, sempre – e isso é notório – com grande genuinidade, paixão e amizade que os une há 25 anos e que vai bem para além da música. Em 2017, o trio já havia voltado a apresentar novo trabalho, com o lançamento de novo álbum, homónimo ao primeiro: simplesmente, Tribalistas.


Embora a sonoridade seja consistente entre os dois álbuns – apesar do tempo que entre eles dista – é de destacar a natureza mais sociopolítica dos temas abordados no álbum mais recente, em contraste com uma mensagem mais positiva que caracteriza o primeiro, diferença esta que resulta das diferentes realidades que o país atravessava na altura e atravessa agora.

Ainda assim, é com essa tal naturalidade que a banda aborda temas sérios de forma leve. É fluidez o adjetivo que melhor caracteriza as melodias das suas canções, num mix perfeito entre música popular brasileira, bossa nova, pop e samba. Foi com entusiasmo que o concerto abriu com os temas “Tribalismo” e “Carnavália”, ambos do primeiro álbum, numa explosão de energia e boa disposição, tão natural dos nossos irmãos brasileiros! “Agora é a nossa vez de colonizar vocês”, bem avisou Arnaldo Antunes logo após a terceira atuação, “Um Só” (esta, já do seu trabalho mais recente, de 2017). E colonizaram… Com espírito de festa!

E é com muita, muita graciosidade que chega suavemente em temas como “Anjo da Guarda”, “Um a Um” e “Água também é Mar” (admitido, ao vivo, por Marisa, que este é um dos temas mais “pré-históricos” composto pelo trio ainda antes de surgir o primeiro álbum), numa sonoridade tão reconfortante que podiam perfeitamente ser canções de embalar.

Entre os temas mais atuais, são de destacar “Fora da Memória”, “Diáspora”, “Ânima” e “Aliança” – valendo a pena destacar que é completamente heartwarming e uma delícia para os nossos ouvidos o equilíbrio perfeito e harmonioso entre a voz dos três artistas: a voz suave, como uma brisa do mar, de Marisa Monte; o timbre profundo, como um baixo humano, de Arnaldo Antunes; o tom amadeirado e quente da voz de Carlinhos Brown. Os três, numa harmonia perfeita, numa só voz.

Num concerto já, por esta altura, completamente impregnado de nostalgia, e para ajudar ainda mais, segue-se o tema “Velha Infância” – sim, aquele, que ficou eternizado como das baladas mais bonitas da década de 2000. Não tiremos mérito algum, porém, aos igualmente encantadores e românticos temas “É Você” e “Carnalismo”. Com estas três de rajada, quem ainda não chorava só podia ter uma pedra no lugar do coração. 


Não foram descurados vários temas apenas de Marisa, nomeadamente a muitíssimo conhecida “Amor I Love You”, a poética “Vilarejo”, a pejada de tons western “Infinito Particular”, a característica samba “Universo ao meu Redor”, a romântica “Depois” e a doce “Até Parece / Não é Fácil”. Mais doce ainda é “Lá de longe”, que chega e passa sorrateira, contrastando com a crua “Trabalive”. 



25 músicas e duas horas de concerto depois, havia ainda um hit em falta. O trio não podia desiludir, e não desiludiu. “Já Sei Namorar”, pois claro, estava (finalmente) ali para fazer todo o mundo cantar, dançar e abraçar muito! O “uh uh uh uh” característico ficou a ecoar por todo o pavilhão do Altice Arena… Até que tudo termina no clímax do encore, com a repetição dos temas “Velha Infância” e, tal como havia aberto o concerto, “Tribalismo”. 

Preparados ou não, com mais ou menos tempo entre si, o que é certo é que, quando Carlinhos Brown, Arnaldo Antunes e Marisa Monte se juntam para compor, a humanidade agradece!


segunda-feira, 16 de abril de 2018

Adriana Calcanhotto – A Mulher do Pau Brasil

Do outro lado do atlântico, chegam-nos sons e ritmos quentes, pautados pela leveza de quem vive uma vida livre. Adriana Calcanhotto é um exemplo vivo isto, tendo conquistado o seu público irmão com a sua voz de timbre caloroso e suave, com as suas obras musicais que nos embalam e as letras que nos deixam um quentinho no coração, que nos fazem sorrir, numa onda “bossa nova pop” muito própria. 

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A sua carreira teve início nos anos 90, mas o espectáculo que deu em Lisboa, mais precisamente no Centro Cultural de Belém, no passado dia 10 de Abril, foi uma estreia. “A Mulher do Pau Brasil”, designação dada a este espectáculo inédito, nasce do seu trabalho enquanto Embaixadora da Universidade de Coimbra e de toda uma carreira que reflecte e se debruça sobre literatura e história. Porque para além de artista, Adriana é claramente uma mulher de palavras, compreendendo e utilizando o seu poder transformativo e aliando-o à música. 

A expectativa e curiosidade eram, assim, de elevado nível. Todo um público sedento por um espectáculo que prometia formou uma fila gigantesca que não só encheu, como quase transbordou, o Grande Auditório. Envolta num ambiente misterioso e provocativo, a artista surge balanceando-se numa cama de rede enorme suspensa sob o palco, acompanhada por Gabriel Muzak, na guitarra e Ricardo Dias Gomes no piano e baixo. Mulher do Pau Brasil foi, justamente, o tema de abertura, homónimo do espectáculo – esta audiência teve o privilégio de escutá-lo em primeira mão –, inspirado nos movimentos modernista e antropófago brasileiros dos anos 20, cujo o título é inspirado na obra Pau Brasil, de autoria do poeta Oswald de Andrade, editado em 1925. 

Em entrevista, Adriana afirmou que o seu principal foco, para este espectáculo, seriam a dor, o luto e a luta. E é isso mesmo que transmitem estes dois primeiros temas, tanto A Mulher do Pau Brasil quanto a se seguiria, A Dor Tem Algo de Vazio - poema de Emily Dickinson, com título homónimo. É verdadeiramente incrível o quão bem consegue a artista transpor três temas tão complexos da vida em notas musicais. A forma intensa e quase desesperada com que canta a frase “de dor”, no refrão, não deixa nada por dizer. 

Mas nem só de temas novos se formou este espectáculo. Adriana prestou homenagens a alguns outros cantores conhecidos, tais como Maria Bethânia – com o tema Mortal Loucura –, Vinicius de Moraes – com o tema Nature Boy – e Chico Buarque – com o tema Caravanas. De entre as melodias mais conhecidas, tivemos o prazer de voltar a ouvir clássicos como Esquadros, Onde Andarás, Não Demora, Inverno, Devolva-me e as tão conhecidas Vambora e Fico Assim. Nomes grandiosos, músicos de excelência e temas clássicos que enriqueceram muito a experiência e, decerto, provocaram muita nostalgia. 


Chega com calma o tema Noite de São João – poema do heterónimo Alberto Caeiro proclamado por Adriana Calcanhotto, o que só tornou a noite ainda mais mágica e poética. Está aberto o caminho para mais um novo tema, O Que Me Cabe. Acompanhada de uma guitarra pautada ao ritmo bossa nova, e com um timbre de voz aveludado, Adriana embala-nos ao som de uma letra sofrida, na qual, novamente o tema da dor está muito presente, como se deixa entender, de resto, pela letra “Você não sabe, o que me cabe. No silêncio, dor. No escuro, dor. No espelho, dor.” 

De igual modo, nem só de música se fez este concerto, na medida em que houve longos e saborosos momentos de diálogo entre a artista e a plateia, criando um ambiente empático e envolvente. Foram diversos os momentos ao longo do espectáculo que Adriana partilhou histórias e inspirações, provocando emoções fortes entre o público, e arrancando algumas gargalhadas. 

Terminou esta noite sublime, com um encore muito especial. Tigresa (original de Caetano Veloso) e Fico Assim foram os dois temas escolhidos pela artista para se despedir. De notar um percalço que decorreu em plena canção Fico Assim: um simples erro por parte de um dos músicos despertou toda uma onda de riso na plateia. Adriana soube lidar com este momento com muita naturalidade e leveza, novamente interagindo com o público com humor, acabando assim por ser um momento que fez toda a diferença! Adriana prometia e, definitivamente, não desiludiu.   



quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Vou-te contar, meus olhos já não podem ver... coisas que só o coração pode entender.

Não sou o tipo de pessoa que "ouve um pouco de tudo". Não sou. (não... não vou criticar quem o é :P mas eu não sou). Há coisas que adoro, que gosto muito, outras que detesto. E ponto final! Mas uma coisa que eu inequivocamente AMO é mesmo...

UMA BOA BOSSA NOVA!

Adoro de paixão. Transporta-me até à minha infância, pois cresci a ver novelas brasileiras. Todas, vi-as todas! Hoje em dia já não acompanho tanto, mas acho que os brasileiros são REIS a fazer novelas, são os melhores e se houver uma boa novela a dar, confesso que não me recuso a ver! (apesar de todo o preconceito, sim preconceito!, que existe contra as novelas).

As bandas sonoras das novelas, então, sempre me apaixonaram desde pequenina. Cresci a ouvi-las na TV - e lembro-me de uma vez que a minha mãe comprou o CD da novela "Laços de Família", eu devia ter uns 8 anos ou menos - e hoje em dia faço questão de ter as minhas favoritas para ouvir no telemóvel, na rua e no carro.

Bossa nova é tudo. Quando oiço, imediatamente transporto-me para um local quente, em que é verão, na praia, e o ritmo de vida é bem lento - "and the living is easy", como dizia o outro.

E simplesmente aquece-me o coração.

Ora vamos lá à minha seleção daquelas que eu acho que são as melhores, mais apaixonantes, mais envolventes... que me levam mesmo para outra dimensão!





E enquanto fazia este post e ia ouvindo todas estas canções maravilhosas... nem imaginam como fiquei com um sorriso na cara :)