terça-feira, 14 de maio de 2019

Backstreet Boys em Lisboa – A boysband que continua a encher pavilhões de euforia, 26 anos depois

Artigo originalmente escrito para o site Echo Boomer.
Fotos oficiais do concerto: Altice Arena

Backstreet Boys

Pois era mesmo assim que se encontrava o Altice Arena, no passado sábado, dia 11 de maio: a abarrotar! Não só dos fãs mais “antigos” – os que viveram a sua infância e adolescência nos anos 90, os que cresceram com os temas desta banda pop como pano de fundo para as suas vivências de juventude – como também por pessoas que são hoje adolescentes – provando que o trabalho artístico de música pop dos Backstreet Boys conquista e atravessa várias gerações (pelo menos quase três décadas). 

Facto é que a boysband que nasceu em 1993 – mas cujo auge de popularidade se registou entre 1996 e 2002 – amadureceu. É agora feita de homens, mas que ainda se apresentam com toda a energia e groove de uma boysband para adolescentes. Uma energia incrível, contagiante e imparável do início ao fim. E é assim que, 26 anos depois, continuam não só a produzir música pop de excelência (o seu mais recente álbum, DNA, lançado o ano passado, foi uma boa surpresa), como a juntar multidões que deliram com as suas letras, beats e coreografias, diga-se de passagem, extremamente bem sincronizadas. 

Portugal foi o país escolhido para a estreia desta tour mundial, e que honra a nossa poder abrir uma série de concertos que, temos a certeza, conquistarão muitos corações pelo mundo fora, como conquistou os nossos nesta noite.


O espectáculo abre com nuances (samples musicais) de um dos temas mais badalados da banda, “Everyone”. Nuances que, talvez, só os fãs com ouvido mais apurado conseguiram reconhecer, enquanto em dois ecrãs gigantes apareciam imagens da banda. “Everyone” foi, na verdade, um tema lançado em 2000 e dedicado inteiramente aos fãs da banda, agradecendo aos mesmos o facto de os manterem sempre no topo – de acordo com o Guinness Book, os BSB são a Maior Boy band de Todos os Tempos com mais de 135 milhões de álbuns vendidos. Assim, nenhum outro tema poderia ter sido mais apropriado para a preparação da entrada da banda. 

 A plateia estava ao rubro desde este primeiro momento de suspense, e o êxtase foi total aquando da “aparição” de Nick Carter, Kevin Richardson, Brian Littrell, Howie Dorough e AJ McLean que cantam, em uníssono, num coro perfeito que ecoou pelo pavilhão, o início de “Be With You”, tema escolhido para abertura, do álbum homónimo à banda, lançado em 1997. 

Da parte de trás do palco, vêm para a frente e os temas “The Call” e “Don’t Want You Back” (tema icónico) fazem-nos viajar de volta ao final dos anos 90 e início dos anos 2000. As coreografias, extremamente bem coordenadas entre os cinco elementos, pejadas de sexappeal, e os mingles das suas vozes, com solos intercalados com coros, só provam que não perderam o jeito para a coisa – talvez até, pelo contrário, o aperfeiçoaram com o passar dos anos. 

Após esta viagem no tempo a alguns dos seus hits mais famosos, é a vez de Nick brilhar com uma pequena intervenção a solo, desta feita com a primeira apresentação de um tema do novo álbum, DNA: “Nobody Else”. Um solo que faz arrepiar, mas que se fica pelo início, como que um sneak peak do que “aí vem”, passando diretamente para um dos temas mais catchy também deste mais recente disco, “New Love” – com uma base line muito funky, linhas de flauta em tom alegre e muito sui generis, num tema que é uma reciclagem compelta do que os Backstreet Boys sempre fizeram de melhor. Depois deste momento, voltamos momentaneamente aos anos 90 (mais precisamente a 1997), com o tema “Get Down,” para, logo depois, um dos temas de DNA, “Chateau”, a solo por Howie – que desaparece, por fim, para o interior do palco. Um autêntico loop de viagens no tempo, com dinamismo e vivacidade imparáveis, incansáveis, que mostraram ter o tempo todo!

Por esta altura, já as emoções eram bem fortes. Entre os hits mais antigos (numa onda bem marcada de nostalgia e revivalismo) e algumas amostras dos temas mais recentes, já não sabíamos bem o que esperar – tudo era uma surpresa, tudo podia acontecer! Tanto que, para segunda parte, aparece num dos grandes ecrãs “BSB Presents: DNA” para depois interpretarem as antigas “Show Me The Meaning Of Being Lonely”, “Incomplete”, “Undone” (estas duas últimas, por sua vez, já mais recentes, lançadas em 2005 e 2009, respetivamente), “More Than That”, “Shape Of My Heart”, “Drowning”, entre outros temas tão hype. Entre estes – neste, lá está, constante back&forth – “The Way It Was”, “Chances” e “Passionate”, três temas do novo disco. Em “Passionate”, particularmente, a loucura foi total, não fosse este o tema definitivamente mais funky do álbum. 

É de destacar que, ainda que mantenham aquele toque extremamente jovial, as canções de DNA têm um tom bastante mais maduro, comprovando não só o crescimento da banda em si, como também a sua notável capacidade de atualização e adaptação; estes temas são contemporâneos, bem integrados no panorama musical dos dias de hoje, mas sem nunca deixar de ter aquele toque “oldschool” a que os Backstreet Boys sempre nos habituaram. 

E cantámos. Cantámos em uníssono, cantámos de cor, as letras na ponta da língua, de uma ponta à outra, e se dependesse de muitos fãs, com certeza muitos não se importariam de fazer duetos com eles! As cinco vozes de Nick, Kevin, Brian, Howie e AJ combinam tão bem, são tão harmoniosas juntas, e a forma como conjugam os solos com os coros, as vozes principais conjugadas com as segundas vozes e backvocals, é soberba. Com certeza muitos dos fãs saíram deste concerto roucos de tanto cantar. O tema no qual isto foi mais notório foi mesmo em “Breathe” (outro dos novos temas), cantado completamente em acapella, tal como o é no álbum. Neste tema, os BSB elevaram-se no palco e elevaram-nos o espírito com tal perfeição vocal.

Para além de serem excelentes cantores e compositores, são também performers exímios: sempre em contacto com o público, sempre a meter-se com quem teve a sorte de estar mais próximo do palco, a interagir e a, literalmente, namoriscar com o público – com acenos, dar as mãos às fãs, piscares de olhos e até mesmo fazer brincadeiras para as câmaras dos muitos smartphones que tinham apontados na sua direção (não fosse esta uma banda dos anos 90 a atuar em pleno século XXI – hoje, já não os recortamos os seus posters das revistas Super Pop e Bravo, mas postamos fotos e vídeos no Instagram com a hashtag #BackStreetBoys). 

Baladas como “As Long As You Love Me”, “Don’t Wanna Lose You Now”, “I’ll Never Break Your Heart” e “All I Have To Give” são apaixonantes e arrebatadoras, capazes de derreter qualquer coração mais mole, e com bastantes influências jazz e blue/R&B que fazem, por vezes, lembrar outra icónica banda de música pop, Boys II Men. 

“Everybody” foi, claramente, o ponto mais alto da noite, não fosse este também um dos hits mais populares e virais de sempre da banda. Afinal, quando se pensa em Backstreet Boys, e mesmo para quem não é fã, quem não se lembra imediatamente da famosa line “Backstreets Back, Alright!”? As não menos extravagantes (no bom sentido) “We’ve Got It Going On”, “It’s Gotta Be You”, “That’s The Way I Like It”, “The One” e a famosíssima “I Want It That Way” (com direito, também, a karaoke por parte do público), seriam os temas que viriam a fechar este extraordinário concerto.



Isto, claro, até aoencore – que combinou com a tónica de todo o espetáculo, com a apresentação de um tema novo, par a par com um dos mais antigos. Do novo álbum, “Don’t Go Breaking My Heart” foi a escolhida, sucedendo-se a “Larger Than Life” (1999). Dois temas que, ainda que separados por 19 anos, são igualmente explosivos – e que, com direito a um mini fogo de artifício e lançamento de confettis, proporcionaram um final à grande e, à falta de melhor palavra, musicalmente orgásmico!

Foram duas horas de concerto, 31 temas mais dois de encore – pudera, são 26 anos revisitados! A distribuição dos temas pelo tempo do espetáculo, o facto de terem aproveitado as passagens e as mudanças de roupa para passarem samples de alguns dos temas que não interpretaram na totalidade, além das constantes oscilações entre hits mais antigos e os temas do novo álbum, foram jogadas de génio que nos deixaram em completo delírio. Um concerto nostálgico, épico e mágico.


sexta-feira, 12 de abril de 2019

Bebel Gilberto – Voz de Veludo e muito improviso

Crítica elaborada para o site Echo Boomer




Onze anos após a sua última atuação em Portugal, na qual celebrou um aniversário, Bebel Gilberto – grande nome no panorama da música brasileira – voltou, este ano, a pisar dois palcos portugueses: primeiro no Porto (n’A Casa da Música), a 8 de abril, e depois em Lisboa, no dia 9 (no Teatro Tivoli BBVA). O Echo Boomer esteve lá para contar tudo em primeira mão e deixa um gostinho da boa energia de Bebel aos fãs que, por algum motivo, não puderam assistir. 

O espetáculo começou intimista, apenas com uma meia luz sob Guilherme Monteiro, guitarrista e amigo de longa data de Bebel. A entrada da artista fez-se acompanhar com uma sentida salva de palmas; surgiu a dançar de forma fluída, com um top brilhante, que apenas complementava o brilho natural que a artista já transpira pela sua presença. 

“Momento”, tema do álbum homónimo, de 2007, começou sorrateiro, abrindo o concerto. “Lisboa, meu amor”, começou por dizer, dando as boas-vindas ao público. Ao longo de todo o concerto, aliás, Bebel manteve uma comunicação fluída com o público, com pitadas de humor, inclusivamente deitando-se no palco e dizendo que foi algo que aprendeu com a grande Maria Bethania, fazendo-nos sentir como se estivéssemos em palco com ela. 

Extremamente expressiva, genuína e espontânea, transmitiu-nos uma autêntica sensação de warm welcoming, tal como é a música dela em geral. Solta, desprendida, carinhosa, simplesmente ela mesma numa entrega total ao momento. 

Com uma setlist definida mas com muita flexibilidade de desvio, flexibilidade essa partilhada com a plateia, Bebel cantou algumas faixas de improviso, como por exemplo “Lisboa boa noite (…) agora eu vou cantar uma música que tem mais um papaparapapapara; na verdade a Bebel põe papapa em todas as canções e todas as canções dela têm papapa, agora vai cantar comigo, se quiser me acompanhar nessa canção”. Também brincou muito com a gastronomia portuguesa, referenciando o bacalhau com natas numa das suas faixas de improviso, arrancando autênticas gargalhadas do público.

  

Ao longo do concerto, entre improvisos e risos, Bebel revisitou alguns dos seus clássicos de samba e bossa nova, que marcaram os momentos mais altos da sua carreira de 30 anos. É o caso das famosíssimas “Baby” e “Simplesmente”, também do álbum Bebel Gilberto – que colocou toda a plateia a cantar em uníssono e a sorrir com o tom enternecedor destas músicas – e a tropical “Aganju”, escrita pelo também reconhecido artista brasileiro Carlinhos Brown. 

Foi com emoção que Bebel falou do recente falecimento da sua mãe aos 81 anos, a também famosa cantora brasileira Miúcha, aproveitando para cantar alguns dos seus temas, em jeito de homenagem – como “Just One of Those Things” (com João Gilberto) e “Comigo É Assim” (com Tom Jobim). De álbuns mais antigos, temos “August Day Song”, “Mais Feliz”, “Sem Contenção” e “So Nice”, todas do álbum Tanto Tempo, lançado em 2000. 

Contámos ainda com uma cover de “Harvest Moon”, de Neil Young, – e, aqui entre nós, ficou a faltar uma das mais bonitas covers também já feitas pela Bebel: “Samba da Benção” (originalmente de Vinicius de Moraes). Afinal, a letra de “Samba da Benção” (“é melhor ser alegre que ser triste / A alegria é a melhor coisa que existe / É assim como a luz no coração / Mas pra fazer um samba com beleza / É preciso um bocado de tristeza / É preciso um bocado de tristeza / Senão não não se faz o samba não”) resume toda a aura musical da artista: uma felicidade serena que toca na tristeza e a necessidade de haver tristeza para haver beleza e composição de música. Mas, pelo charme de todo o concerto, não só pelas músicas em si como por todo o encanto enternecedor que a artista imprime na sua atuação, está perdoada por essa “falta”. 

Para encore, dois dos seus temas mais conhecidos, “Samba e Amor” – tema gravado com o seu tio Chico Buarque – e “Preciso Dizer Que Te Amo” – o seu primeiro tema gravado em estúdio, em 1986.

   

Bebel respira música e nota-se que esta é a arte que preenche a sua alma – não corresse a música no seu sangue, sendo filha de Miúcha e João Gilberto, e sobrinha de Chico Buarque. Bebendo das suas heranças, nunca desiludiu, contando com uma carreira sólida, estando o lançamento do seu próximo álbum previsto para este ano. 

No palco do teatro Tivoli BBVA, era só ela e o seu companheiro Guilherme – como o nome do espetáculo, de resto, indicava, “Voz e Violão”, a base eterna da bossa nova. E, de facto, não era preciso absolutamente mais nada para sairmos de lá com o coração cheio.


quinta-feira, 14 de março de 2019

Mishlawi - Como sentir a música com todas as células do corpo!

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Em pleno início de uma carreira bastante promissora, Tarik Mishlawi, luso-americano de 21 anos, torna-se num nome cada vez mais proeminente no panorama de hip-hop/rap português, mas não só – é já falado a nível de imprensa internacional, tendo sido referenciado como “A Revolução do Hip Hop português” pelo jornal espanhol La Vanguardia, e frequentemente referenciado como Talento Transatlântico. Os comentários nos seus vídeos do Youtube frequentemente referem que Mishlawi é um dos artistas hip hop mais underrated. Será que isso está a mudar agora, para o artista? 

Em plena era tecnológica e em que muito se fala na geração Millennial, foi na internet que Mishlawi começou por divulgar o seu trabalho artístico, proliferando um pouco por diversas redes sociais, acabando por fim por ser descoberto pelo já conhecido Richie Campbell. Em 2019, no passado dia 9 de março, apresentou, pela segunda vez na sua (ainda) curta carreira, um concerto em nome próprio (sendo que o primeiro terá tido lugar no Porto, a 22 de fevereiro). O local escolhido foi o Coliseu de Lisboa e as expectativas, essas, estavam a um nível bem elevado – como se podia ver e sentir, de resto, pela euforia da jovem plateia que preenchia a arena do Coliseu. 

E por falar em sentir, é exactamente sobre isso mesmo que este concerto foi. As emoções eram fortes e estavam ao rubro ao som daquilo que é um mix de hip-hop com R&B, complementado com uns toques de reggea, aos old school 90’s beats, complementado com instrumentais mais jazz, pontualmente. Uma mistura, se me perguntarem a mim, deliciosa e que acaricia a alma – mas com uma certa garra que me é, muito honestamente, difícil transpor em palavras. FMR (F*ck Me Right) e Always On My Mind (um dos primeiros singles do artista) foram dois dos temas escolhidos para abertura daquela que seria uma noite de êxtase.

Sobretudo em FMR, com aquela linha de sintetizador inicial bem provocadora, que evolui naturalmente para um tema hip hop extremamente bem concretizado.

   

Em tom mais jazzy, é tempo de Mishlawi apresentar os elementos que o acompanham em palco. Com uma forma de falar extremamente sedutora, arrastando a voz e as palavras, e com um charme que lhe é característico e que combina tão bem com toda a sua persona. Delicioso de ouvir, esboça-se um sorriso. 

Esta apresentação precede Uber Driver, que começa de forma tímida, em acapella, e cresce, ganhando corpo e transformando-se na (também) ótima música R&B que é. Bad Intentions, outro grande hit que levou Mishlawi para as luzes da ribalta faz o corpo, literalmente, estremecer, de uma forma muito agradável, com a tal “garra” que parece estar sempre presente pela linha de baixos sempre fortes e bem marcados.


Ótimas músicas R&B são também alguns dos novos temas que o artista apresentou neste concerto, entre os quais Afterthought e Too Basic, ambos em colaboração com Trace Nova, e ambas do seu mais recente álbum de estúdio, Solitaire. Temas como Win Some Lose Some (igualmente do album Solitaire) e Rain (com a colaboração de Richie Campbell e Plutonio) fazem as delícias dos amantes de um bom R&B, aqueles que compreendem o conceito de experienciar a música como um todo holístico: não apenas ouvir, não apenas escutar, nem tampouco apenas “ver”, mas sentir a música com todas as células do corpo – com os olhos fechados e de copo na mão, deixando o corpo acompanhar os flows multissilábicos, que oscilam entre graves e agudos, contrabalançados come com aquele urban feeling, resultante da presença constante e bem marcada da linha de baixos. Limbo e Boohoo fazem, de resto, as delícias dos mais românticos, aqueles que decoram os refrões e depois os cantam nos concertos, em uníssono.


Quase a terminar a sua actuação, o artista resgata um dos seus primeiros singles, All Night (single que já conta com mais de 10 milhões de visualizações no Youtube). Aqui, com um toque mais de salsa e com uma linha de saxofone distinta, temos um exemplo da mistura pontual de estilos que o artista imprime em alguns dos seus temas: All night contém uma sample do músico de jazz americano ChickCorea, acabando por misturar, assim, os estilos Latino e Trap. 

Para encore, o tema Ignore – outro tema cheio de tudo o que Mishlawi é: sedutor, desafiante, provocador, proibitivo de certa forma. Tal qual como se estivéssemos a transgredir algo, a música dele entra como um guilty pleasure musical para os apaixonados desta e pela vida. 

Com um “peace out” se despede de um concerto que, para quase estreia, diria que está aprovadíssimo. Teremos aqui um Drake português?!


sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Alex Page - Your Disorder |


Qual é a tua desordem? O teu “distúrbio mental”? O que te perturba e inquieta?
(já paraste para pensar nisso?!)

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É essa a questão que, em tom provocativo, quer Alex Page deixar para o ouvinte reflectir...

Falo de Your Disorder, primeiro álbum de estúdio de Alex Page, banda de pop-rock alternativo oriunda de Almada, composta por Alexandre Matias (vocalista), Cláudio Pinto (baixista) e Ricardo Mendes (baterista). Acabado de sair, em janeiro de 2019, Your Disorder caracteriza-se por ser um álbum conceptual que, através de sonoridades e melodias originais, reflecte e retrata através das mais variadas ideias, a desordem interior que todos temos. Todos, sem excepção!

Adequado às tendências atuais do panorama musical, Your Disorder é composto por 9 temas (sendo o primeiro deles um poema declamado em português), cantados em inglês pela fabulosa voz de Alexandre Matias mas com uma alma bem, bem portuguesa!

E é com imenso orgulho que escrevo hoje a review deste que é o primeiro álbum de estúdio de um grande artista mas, sobretudo, de um grande amigo meu! O culminar de um trabalho dedicado de anos e fruto de uma paixão como nunca vi!

Aqui fica a minha opinião sobre cada tema, numa perspetiva extremamente pessoal e sobretudo de quem assistiu aos primórdios de alguns destes temas.

Poema VIII
O álbum começa com a declamação de um poema (escrito por mim quando tinha uns 15 ou 16 anos), e declamado pelo reconhecido ator Vítor de Sousa. Este poema fala sobre como somos tudo e nada, como vivemos tudo e nada, e como este tudo e nada é efémero tanto quanto a vida em si - fruto de uma desordem interior que se fazia sentir já desde aquela tenra idade. É, por isso, um poema que reflecte a mensagem global que Alex Page pretendem passar com este álbum. Todos temos desordem interior, só difere quando nos apercebemos disso e como lidamos com ela ao longo da vida.

Fake Repressed Desires
O álbum começa com um tom extremamente fatalista – não necessariamente no mau sentido. Fez-me lembrar Evanescence e eu fui fã desta banda. Gosto muito do início quase em acapella, a voz do Alexandre apenas acompanhada do som do vento, de um sintetizador e de um violino. Mas adoro ainda mais que, ao fim de um minuto e meio (e quase como que um alívio por estarmos a implorar por isto mesmo), entrem o resto dos instrumentos, a encher a música, tornando-a mais plena. De destacar a influência de Lana Del Rey em toda a aura da canção, desde a melodia em si, ao sentimento de fatalismo, e até mesmo na bridge, com a letra “Vodka on the rocks / All these bikini models / All the vanilla profit / A sweet taste of pies and ice”.

É uma das faixas que mais gosto no álbum 😊

Framed Pictures

In a more uplifting and playful tone, chega Framed Pictures. Com uma linha de sintetizador constante e que acaba por ser a baseline caracterizadora de toda a música, a melodia extremamente catchy do refrão e das bridges faz com que este tema fique, mesmo, no ouvido. No meio de toda a euforia, a guitarra elétrica e os instrumentos de sopro (saxofone, trompete e trombone) vão dando o ar de sua graça, como quem diz, olha, também estou aqui.
Framed Pictures foi o 1º single de lançamento do disco e foi uma excelente escolha, na minha opinião! É de facto um tema cativante, que nos deixa a cantarolar após ouvi-la um par de vezes.

The Complex
Esta música é esperança. É o newcoming. É uma nova Era. É renascer! É como que uma lufada de ar fresco.

Esta música, para mim, é a segunda melhor (já vão saber qual é a primeira melhor) do álbum e atrevo-me a equipará-la, em algumas partes, a um tema que poderia ter sido escrito pela Regina Spektor. O refrão é completamente libertador e a bridge final, essa, um grito de revolta delicioso de se ouvir. E sentir. Extremamente bem conseguido, este tema tem tudo o que se quer de uma música pop alternativa: faz-nos sentir que, simplesmente, faz sentido (redundância propositada).

Looking
Com um início muito 80’s, mas ao mesmo tempo algo futurista, este tema é muito carismático, desde o início ao fim. Adoro o som das palmas no refrão, remetendo-me imediatamente aos Arcade Fire, outra banda que aprecio bastante (ou q.b.). No geral, Looking é mais um tema bastante catchy e bem conseguido.

Morphine
O meu tema absolutamente fa-vo-rito deste álbum! É sedutor, delicado; acaricia-me a alma e fá-la dançar.

A-dorooooo a cadência das notas de piano, o cintilar do xilofone, a voz do Alexandre a arrastar-se numa melodia enrolada e enebriada.

Se costumo quebrar a escala para músicas que gosto muito (!), dentro do álbum Your Disorder, Morphine é definitivamente um 11/10.

Well, Well, Well
Com a participação da voz suave mas garrida de Sofia Lisboa, este é um tema que surge subtil e vai crescendo em camadas – começando com um sintetizador meio corky, sendo complementado com um baixo e um piano bem marcados e constantes, uma bridge a solo, finalmente culminando num crescendo musical com uma agradável melodia em saxofone. A forma como as vozes de Sofia e Alexandre Matias se conjugam entre si oferece uma sensação de harmonia e até mesmo um quentinho no coração.

Fazem ainda parte desta primeira compilação de originais, os temas Black Grace e La Nuage. Confesso que foram os únicos dois temas que pessoalmente não me agradaram particularmente.


Mais uma vez, dou os meus mais sinceros parabéns Alex Page que, com muita dedicação e paixão, tornaram este primeiro disco possível, num país como o nosso em que o reconhecimento pelas diversas áreas artísticas é cada vez mais difícil! Conseguiram e conseguem fazer um trabalho de qualidade e que coloca a música nacional num patamar cada vez mais elevado.

Aconselho muito a comprarem o álbum online (aqui), pois terão acesso aos videoclips conceptuais realizados especificamente para cada tema. Vale muito a pena!




sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Brit Floyd na Altice Arena – Um espetáculo que une gerações

Crítica escrita originalmente para o site Echo Boomer


A cópia é a melhor forma de elogio, já dizia o ditado popular. Mas é mais com o intuito de prestar um tributo, e não tanto o de copiar (pelo menos não com a conotação negativa que pode ser conferida ao termo), que Brit Floyd, banda-tributo, leva os grandes hits dos irrepetíveis Pink Floyd a palcos um pouco por todo o mundo.

Este ano, para celebrar os 45 anos do inesquecível álbum The Dark Side Of The Moon – vendeu mais de 45 milhões de cópias e é considerado como um dos melhores álbuns de rock progressivo alguma vez produzidos – o palco do Altice Arena, em Lisboa, recebeu uma recreação à altura do acontecimento. Um acontecimento que é nada mais, nada menos, que o último concerto desta tour dos Brit Floyd, depois de terem passado por 154 palcos diferentes. Ainda que o nome da tour seja “The Dark Side Of The Moon“, homónimo ao álbum que pretende homenagear, esta experiência de duas horas foi uma autêntica e deliciosa viagem no tempo e uma (re)visita a muitas canções, presentes em diversos álbuns de estúdio dos icónicos Pink Floyd.

“Shine On You Crazy Diamond” é o tema que faz as honras de abertura de um espetáculo que prometia e que, desde logo, começou a cumprir. O ambiente envolto em mística, os acordes das guitarras num enrolar delicioso a ecoar pelo espaço da arena, como que deixando um rasto atrás de si, as melodias nostálgicas e orgânicas – era isto mesmo que a alma estava a pedir; estavam reunidas as condições para aquecer uma noite bem fria.

“É ótimo estar de volta”, anunciou o vocalista e diretor musical, Damian Darlington, seguido de um “Obrigado” com o “r” bem enrolado, despertando o público do estado de quase transe no qual o tema anterior o tinha deixado. Para aligeirar um pouco o ambiente, segue-se “Arnold Lane”, no qual o saxofonista Ryan Saranich merece um destaque pela sua brilhante prestação a solo. Não tarda muito até que o ambiente seja de novo envolto em misticismo e que sejamos engolidos pela envolvência absoluta que caracterizam os temas de Pink Floyd – como “High Hopes” e “Sorrow”.

“Another Brick In The Wall” é, a seguir ao tema de abertura, o segundo momento alto da noite. Afinal, quem nunca cantarolou “We don’t need no education!”? Um clássico, pejado de rebeldia, e que contou com um brilhantíssimo solo de guitarra.

Em “Mother”, outro dos temas mais conhecidos, é possível ver como algumas letras da banda quase se tornaram “slogans”, com todo o público a cantar “Mother, should I run for president? Mother, should I trust the government?” – e com Damian a cantar um “Não” ressonante como resposta a cada pergunta. A propósito deste exemplo de uma letra que se tornou quase simbólica, é de revelar a natureza sociopolítica que caracteriza as composições e as letras de Pink Floyd, presente em temas como “A Great Day For Freedom”, “Southhampton Dock” e “Dogs Of War” – o que mostra que tudo isto é muito mais do que (muito boa) música ou espetáculos com efeitos visuais espectaculares e luzes de lazer. Pink Floyd é História em forma de música.


Fotos: Ritmos&Blues

A sequência “Speak To Me/Breathe” e “Time” foi uma feliz escolha de alinhamento que, entrelaçadas, num continuum psicadélico, compreendem em si toda a magia do álbum The Dark Side Of The Moon – com a devida salvaguarda para a divertida e rock n’ roll “Money”, já previamente tocada.

“The Great Gig In The Sky” surge, num grito (literalmente) de (des)esperança e resignação perante a efemeridade da vida, cuja única letra é falada no início, “I’m not afraid of dying. Anytime I’ll do, I don’t mind. Why should I be afraid of dying? There’s no reason for it, we gotta go sometime”. A vocalista Angela Cervantes esteve irrepreensível na sua prestação. Uma performance transcendente.

Mas não há tréguas, ainda. “Have a Cigar”, “The Final Cut”, “Wish You Were Here” (denunciada desde um primeiro momento com o inconfundível acorde de guitarra) e “Confortably Numb” (num intercalar entre momentos mais contidos e momentos de explosão), foram outros três grandes pontos altos da noite, sendo, igualmente, três dos temas mais acarinhados pelo público.

Todo este repertório foi acentuado com os temas do encore – uma “Brain Damage” que conflui com uma “Eclipse”, num autêntico culminar de sensações fortes; e, por fim, “Run Like Hell”.

A loucura em forma de rock. “Até faz mexer o coração!”, dizia a pessoa que me acompanhava nesta noite.

Ainda que tenha sido um concerto cheio em todos os sentidos, ficaram a faltar dois temas essenciais: “Us & Them” e “Any Colour You Like”.

Eis um espetáculo que une gerações. Fãs de 70 anos, que assistiram aos concertos originais da banda, e jovens de 20 anos, que estão agora a descobrir pela primeira vez as letras inventivas e filosóficas de Roger Waters, partilham o mesmo espaço.

No topo do fenómeno melódico e lírico dos temas de Pink Floyd, a arte exibida por cada vocalista e instrumentalista foi impecável. Através das luzes e visuais cativantes, chegamos quase à utopia musical. Pink Floyd e Brit Floyd são lembretes de como a música pode ser omnipotente na sua habilitade de transportar e conectar. Unir, firmar e imortalizar. No final de contas, é a coisa mais próxima que temos à magia, e este espectáculo relembrou-nos bem disso.

E é isto que, verdadeiramente, define uma banda como sendo intemporal.


quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Tribalistas – 15 anos depois, é como se nunca tivessem parado de criar música

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Admitidamente impreparados, foi 15 anos depois do lançamento do seu primeiro álbum que a banda de música pop brasileira, Tribalistas, se apresentou pela primeira vez ao vivo em Portugal. Impreparados, pelo menos assim o admitem em várias entrevistas, os três artistas que compõem este trio, confessando que o primeiro álbum surgiu de forma totalmente espontânea e que, sem qualquer expetativa, vendeu qualquer coisa como cinco milhões de discos. Fazer música sempre foi algo espontâneo, não planeado, e fruto de uma paixão partilhada pelos três.

Corria o ano de 2003 quando o single “Velha Infância” chegou e veio para ficar, apaixonando corações do público português – para nunca mais ser esquecido. Este é, no entanto, apenas uma das 56 músicas que Marisa Monte, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes compuseram, sempre – e isso é notório – com grande genuinidade, paixão e amizade que os une há 25 anos e que vai bem para além da música. Em 2017, o trio já havia voltado a apresentar novo trabalho, com o lançamento de novo álbum, homónimo ao primeiro: simplesmente, Tribalistas.


Embora a sonoridade seja consistente entre os dois álbuns – apesar do tempo que entre eles dista – é de destacar a natureza mais sociopolítica dos temas abordados no álbum mais recente, em contraste com uma mensagem mais positiva que caracteriza o primeiro, diferença esta que resulta das diferentes realidades que o país atravessava na altura e atravessa agora.

Ainda assim, é com essa tal naturalidade que a banda aborda temas sérios de forma leve. É fluidez o adjetivo que melhor caracteriza as melodias das suas canções, num mix perfeito entre música popular brasileira, bossa nova, pop e samba. Foi com entusiasmo que o concerto abriu com os temas “Tribalismo” e “Carnavália”, ambos do primeiro álbum, numa explosão de energia e boa disposição, tão natural dos nossos irmãos brasileiros! “Agora é a nossa vez de colonizar vocês”, bem avisou Arnaldo Antunes logo após a terceira atuação, “Um Só” (esta, já do seu trabalho mais recente, de 2017). E colonizaram… Com espírito de festa!

E é com muita, muita graciosidade que chega suavemente em temas como “Anjo da Guarda”, “Um a Um” e “Água também é Mar” (admitido, ao vivo, por Marisa, que este é um dos temas mais “pré-históricos” composto pelo trio ainda antes de surgir o primeiro álbum), numa sonoridade tão reconfortante que podiam perfeitamente ser canções de embalar.

Entre os temas mais atuais, são de destacar “Fora da Memória”, “Diáspora”, “Ânima” e “Aliança” – valendo a pena destacar que é completamente heartwarming e uma delícia para os nossos ouvidos o equilíbrio perfeito e harmonioso entre a voz dos três artistas: a voz suave, como uma brisa do mar, de Marisa Monte; o timbre profundo, como um baixo humano, de Arnaldo Antunes; o tom amadeirado e quente da voz de Carlinhos Brown. Os três, numa harmonia perfeita, numa só voz.

Num concerto já, por esta altura, completamente impregnado de nostalgia, e para ajudar ainda mais, segue-se o tema “Velha Infância” – sim, aquele, que ficou eternizado como das baladas mais bonitas da década de 2000. Não tiremos mérito algum, porém, aos igualmente encantadores e românticos temas “É Você” e “Carnalismo”. Com estas três de rajada, quem ainda não chorava só podia ter uma pedra no lugar do coração. 


Não foram descurados vários temas apenas de Marisa, nomeadamente a muitíssimo conhecida “Amor I Love You”, a poética “Vilarejo”, a pejada de tons western “Infinito Particular”, a característica samba “Universo ao meu Redor”, a romântica “Depois” e a doce “Até Parece / Não é Fácil”. Mais doce ainda é “Lá de longe”, que chega e passa sorrateira, contrastando com a crua “Trabalive”. 



25 músicas e duas horas de concerto depois, havia ainda um hit em falta. O trio não podia desiludir, e não desiludiu. “Já Sei Namorar”, pois claro, estava (finalmente) ali para fazer todo o mundo cantar, dançar e abraçar muito! O “uh uh uh uh” característico ficou a ecoar por todo o pavilhão do Altice Arena… Até que tudo termina no clímax do encore, com a repetição dos temas “Velha Infância” e, tal como havia aberto o concerto, “Tribalismo”. 

Preparados ou não, com mais ou menos tempo entre si, o que é certo é que, quando Carlinhos Brown, Arnaldo Antunes e Marisa Monte se juntam para compor, a humanidade agradece!


segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Best Youth na Timeout Market Lisboa: Como o synth-pop nos conquistou


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Imagem: Público

Crítica escrita pelo João Cunha para o site Echo Boomer.

O Timeout Market Lisboa recebeu os Best Youth na passada sexta-feira para uma noite onde o synth-popreinou. O mote foi a apresentação do novo álbum Cherry Domino, o segundo longa-duração da banda, lançado digitalmente em junho passado. De notar que entre o álbum de estreia Highway Moon e este distam três anos – entre os lançamentos houve ainda uma reedição desse primeiro álbum no ano passado, com direito a mais duas novas canções -, mas aqui o que interessa é a qualidade.


E é na qualidade que Ed Rocha Gonçalves e Catarina Salinas dos Best Youth primam. Se no álbum de estreia foram alvo de críticas extremamente positivas, a tendência deverá permanecer com este Cherry Domino. A juntar à festa foi também a apresentação de quem os acompanha ao vivo, uma verdadeira nata musical portuense, a saber: Fernando Sousa (X-Wife), Miguel Ferreira (Clã) e Tito Romão (Salto).


A aposta mostrou-se ganha logo à primeira canção: entraram de mansinho com “Feelings”, deste novo álbum, uma mostra bastante clara de que a sonoridade dos Best Youth não mudou, apenas evoluiu, para melhor. Isso mesmo nos confirmou “New Boy New Girl”, canção que se seguiu, onde a presente melancolia nas palavras de Catarina Salinas era envolvida numa canção que podia ser uma lullaby dos anos 80.


A exploração por Cherry Domino continua pela sublime “Nightfalls”, exercício pop onde a voz de Catarina Salinas assenta lindamente no meio do sintetizadores e das drum-machines. O ingrediente que sobressai é, claramente, a facilidade com que as canções do novo álbum nos metem a dançar.


Aproveitando o mote, é-nos apresentado de seguida “I’m Still Your Girl”, single de 2013, a primeira incursão no espólio que os Best Youth criaram antes de Cherry Domino seguida de “Nice Face”, fruto da colaboração com os We Trust no grupo There Must Be a Place, canção sobejamente conhecida e ouvida do púlbico português. Por esta altura do concerto, os Best Youth já nos tinham conquistado sem qualquer sombra de dúvida: a voz sussurrante e sexy de Catarina Salinas conjugava-se na perfeição com as composições de Ed Rocha Gonçalves e a prestação do grupo era cativante.


A setlist foi muito bem escolhida e, conscientemente ou não, o concerto foi crescendo em intensidade perante os temas apresentados. Seguiu-se “Part of the Noise”, uma colaboração brilhante com Moullinex no novo álbum e uma forma nos levar de volta ao synthpop (e de nos pôr a dançar com facilidade, já agora!), a fabulástica “Red Diamond” e “Black Eyes” – ambas do Highway Moon – e chegamos a “Hang Out”: tempo para uma breve menção, por parte da banda, ao primeiro single da carreira, que teve várias versões até àquela que nos foi aqui apresentada. Seguiram-se “Sunbird” e “Renaissance”- inclusões na versão reeditada de Highway Moon – bem-dispostas e exemplos de um pop descomprometido, mas extremamente bem conseguido, para fechar, por ora, o baú das memórias, pois o mote (ainda) era o álbum Cherry Domino.


A entrada de “Highlights” releva bem a evolução dos Best Youth na construção de canções pop. As referências e lembranças à tão-presente década 80 não será motivo para minorizar a obra dos Best Youth, antes pelo contrário, é motivo de orgulho tal como nos mostra “Coincidence”, a balada que trouxe, por breves momentos, a calmaria ao público do Timeout Market.


Mas o tempo escasseava; “Desintegrate” – tema que fecha o novo álbum – com uma tonalidade subliminarmente jazzy, mas altamente eficaz, e onde a voz de Catarina Salinas subtilmente nos guia num refrão viciante fechou a sequência de novidades.


Para o final ficaram os trunfos, as que faltavam ouvir – as que queríamos ouvir! – primeiro o single que antecedeu Cherry Blossom: o magnífico “Midnight Rain”, prova brilhante do synth pop dos Best Youth, desde os sintetizadores reminiscentes aos New Order aos acordes da guitarra límpida de Ed Rocha Gonçalves, que podiam lembrar os The Sundays. A fechar, a mais-do-que-aclamada “Mirrorball”; peça-chave do primeiro álbum e, sem dúvida, a mais aguardada. Não houve dúvidas: a noite tinha sido ganha. Pelos Best Youth e por nós. E queríamos mais.

Ed Rocha Gonçalves e Catarina Salina, muito envergonhadamente, disseram-nos que não tinham preparado encore, mas ainda ofereceram “When All Lights Are Down”, o final de um concerto que não serviu apenas para apresentar o novo álbum dos Best Youth, mas para os (re)confirmar como um dos projetos de música pop made in Portugal mais interessantes desta década.

Será seguro aconselhar os Best Youth a preparar encores doravante. Diz que é preciso.



sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Album Review | Ariana Grande - Sweetener

A Ariana Grande foi uma descoberta relativamente recente para mim (não daquelas all-time-favourite-divas como a Christina Aguilera que oiço quase desde a infância), com o álbum Dangerous Woman, acerca do qual inclusivamente já tinha feito uma crítica aqui. Os outros dois álbuns que ela tinha lançado antes deste, confesso, não prestei muita atenção.

Apesar de ser uma descoberta recente, Ariana prendeu-me desde a primeira audição, com a sua doçura, que é algo que, na minha opinião, a caracteriza; até mesmo nos temas mais "agressivos", ela continua doce sempre. E só de ouvir a voz dela, confesso, apetece-me abraçá-la!

Então, Sweetener não é um título perfeito para o novo álbum dela?! É, sim senhora :D


Ariana Grande - No Tears Left To Cry press shotSweetener é, então, o quarto álbum de estúdio da artista, o primeiro após o acontecimento traumatizante que foi o ataque terrorista que decorreu durante o seu concerto em Manchester, com uma mensagem de não-rendição às tragédias e de "a vida continua", com o poder restaurativo da música.

Não acho que este trabalho esteja ao mesmo nível do Dangerous Woman. Ainda assim, está muito bem conseguido!

Com um álbum pejado de uma alegria discreta (low-key joy) constante, Ariana surpreende-me com o domínio vocal que tem, sendo capaz de passar rapidamente de um registo mais forte para um quase suspiro. E, neste aspecto, consigo compará-la à grandiosa Mariah Carey. Diria até que a Ariana é a Mariah Carey deste século, em muito me faz lembrar (as oscilações vocais, a doçura!)

Sweetener é um álbum dreamy e cheio de nuances deliciosas. Começa com uma faixa em acapella, com a sua inconfundível voz, Raindrops (An Angel Cried), seguindo-se Blazed, faixa que já não me chama tanto.

E a propósito de Blazed, que foi produzida por Pharrel Williams, é importante destacar que 6 faixas deste álbum contaram com a colaboração/produção/escrita do artista, marcadas por idiossincrasias funk-lite que elevam as estruturas musicais mais convencionais do disco. Em Blazed, como já anteriormente referido, e REM, por exemplo, detectamos logo a presença de Pharrel.

Escrita por Beyoncé, esta é uma das minhas faixas favoritas! Tão dreamy, tão joyful, tão leve e deliciosa. As diferentes texturas e camadas em tom de quase brincadeira, os tons gospel, a execução quase rap de Ariana. Esta música fala de sonhos e de não querer acordar deles.

(Infelizmente, a faixa REM ainda não está disponível para audição na internet)

Segue-se God Is a Woman, que é já um dos hits mais atuais!

Cheia de energia feminina, Ariana aborda novamente o tema da Mulher - no álbum anterior, com o single "Dangerous Woman", e neste, com o single "God is a Woman".

God is a Woman é um tema desafiante, que acaba por misturar religião com sexualidade, uma vez que está subjacente que uma experiência sexual é algo divino, e subvertendo o "pecado do sexo" como uma sugestão de que o mesmo tem propriedades redentoras, ao invés do que está estabelecido na religião.

A faixa é de empoderamento, dominância feminina e liberação sexual. Ariana canta a sua rebelião contra a expectativa, "And I can be all the things you told me not to be", e desafia o status quo de que deus é uma figura masculina e paternal.

A faixa homónima ao nome do álbum, Sweetener, volta de novo à onda doce de Ariana, arriscando eu dizer que toda ela tem um certo tom natalício, e com sintetizadores, no refrão, que nos transportam de volta para os anos 90 (algo que tem sido tendência da música comercial hoje em dia, ir reciclar sonoridades que eram populares nesta década). Também, ainda no refrão, a line "get it, hit it, flip it" repetida é verdadeiramente catchy!

Successful e Everytime, faixas que se seguem, muito honestamente não me dizem nada e são pontos fracos deste álbum. Successful é só arrogância e auto-promoção sem qualquer conteúdo.  E Everytime, simplesmente não me convence.

Breathin' é outro dos hits mais atuais, e das principais faixas do álbum. Com uma sonoridade muito expansiva e, na minha opinião, até algo futurista, é muito "anos 2000", transmite-me um feeling altamente imersivo. A-dorooooo, mais uma vez, as passagens vocais repentinas dela, particularmente nesta faixa na line "Time goes by and I can't control my mind".



No Tears Left to Cry surge novamente com um tom futurista e atual, com uma forte mensagem de "I'm over it". Sofreu, chorou, e agora está num state of mind em que já nem lágrimas tem, mas não quer sair desse estado; talvez um estado de nirvana? Um sentimento de descoberta de uma nova fase de felicidade após um período de sofrimento. She's livin' it and she's lovin' it.


Right now, I'm in a state of mind

I wanna be in, like, all the time

Ain't got no tears left to cry

So I'm pickin' it up, pickin' it up (oh yeah)

I'm lovin', I'm livin', I'm pickin' it up



Borderline surge como uma canção que parece que tem pressa de acabar. Tenho mixed feelings em relação a esta faixa! Se, por um lado, adoro aquela combinação sintetizador-batida, por outro lado, há algo na sua sonoridade que me faz lembrar um anúncio de TV. 

Better Off é a balada do álbum, toda ela, lá está, com aquele ar queridinho, tão característico dela. Uma balada eletrónica calma, não das melhores que já ouvi, mas que aquece o coração!




(snippet da faixa)

Goodnight N Go, bem como Pete Davidson, são também duas faixas que não me aquecem nem me arrefecem.

E o disco termina com Get Well Soon, para mim, também uma das melhores faixas! Muito jazzy, muito smooth, transporta-me para um outro mundo, o mundo em que estou a cantar com ela.


(snippet da faixa)

De um modo geral, achei um trabalho extremamente coeso, que se coaduna com e mantém-se fiel à identidade de Ariana (a que ela passa para o público, que me parece ser genuína). Gosto mais do álbum anterior, Dangerous Woman, sem dúvida. Mas Sweetener é, e como o próprio nome indica, sweet mais do que suficiente para já me ter prendido e ser o meu álbum de eleição em repeat desde que saiu!



terça-feira, 24 de julho de 2018

Super Bock Super Rock 2018 | The The: Matt Johnson e a sua génese

Review do concerto de The The, no festival Super Bock Super Bock 2018, para o site Echo Boomer.
Autoria: João Cunha

Super Bock Super Rock 2018 | The The: Matt Johnson e a sua génese

Disse Matt Johnson, o frontman e mente por detrás dos The The – grupo nascido e crescido nos 80’s, dos quais soube aproveitar uma série de boas referências – que a primeira cidade que tem recordação de visitar é, precisamente, Lisboa, numa visita com os pais. Pois nós já praticamente não tínhamos recordação da última passagem deste por terras lusas: são precisos 18 anos para regressarmos à última atuação dos The The em terras lusas – inseridos no Paredes de Coura – ou ainda uns bons 29 anos (1989!) desde um concerto no Coliseu de Lisboa. Estas datas traduzem-se numa plateia cuja média de idade já traz alguma história, não obstante um ou grupo outro jovem que, incrível e genuinamente, vibrava com igual intensidade. 

No ano passado, Matt Johnson voltou a montar o seu ensemble para um novo single (“We Can’t Stop What’s Coming”) e acaba por dar azo a uma tournée onde se inseria este concerto dado no Palco EDP. Munidos de uma discografia que, claramente, poderia ser dividida em mais que um concerto best of, os The The deram um bom espectáculo, muito bem executado e sem quaisquer subterfúgios. Tendo seis álbuns para percorrer – e sendo os primeiros três os mais desejados (presunção de autor!) seria de esperar que o concerto se focasse nestes. 

Abrindo a performance com “Global Eyes” – dum, talvez, menos amado Nakedself editado em 2000 – foi isso mesmo que transmitiram: a obra dos The The não se cinge apenas aos temas mais antigos e que há canções (algumas sublimes!) que fizeram de Matt Johnson e os seus The The nomes incontornáveis da cena alternativa britânica dos anos 80. 

Com uma visível boa disposição, Matt Johnson mostrou que, incrivelmente mais de 30 anos depois de se estrear, a sua voz continua a debitar-nos a sua magia – a força que guia as melodias dos The The – e que estes temas continuam a encaixar-se em temas extremamente atuais, com uma sonoridade que se preservou muito bem (nuns casos mais que outros).

The The no Super Bock Super Rock 2018

Ao segundo tema “Sweet Bird of Truth” (do álbum Infected, 1986) Matt Johnson lembra-nos que, nesta altura, o envolvimento dos EUA no Médio-Oriente era também tema emergente da altura, servido num pop-post-punk altamente viciante. Não nos proporcionando a mesma riqueza das versões em estúdio, todos os temas foram tocados irrepreensivelmente mostrando que o grupo vinha bem preparado. 

Fomos ainda servidos com algumas raridades – neste caso um single perdido – com “Flesh and Bones” (1985) e ainda temas dos álbuns Mind Bomb (1989) – singela aparição de “Armaggedon Days Are Here (again)” – e Dusk (1992), para além de outros temas dos álbuns acima citados. Pelo meio houve ainda direito à brilhante dicotomia ditada pelas “This Is The Night” e “This is The Day” – sendo esta a primeira, e também mais famosa, incursão pelo álbum de estreia Soul Mining (1983). 

Chegados à parte final, esperava-nos uma fabulosa tríade: “Infected”, “I’ve Been Waitin’ For Tomorrow (All of My Life)” e “Uncertain Smile” – onde, com alguma desilusão, se nota que a mistura de som não foi a melhor, pois o espetacular solo de piano (uma obra-prima composta e tocada por Jools Holland no original) esteve, apesar de bem executado, assoberbado pelo som dos restantes instrumentos. Ainda assim, a chave de ouro. 

Dadas as poucas oportunidades que tivemos de os ver, penso que os The The cumpriram a quem os desejava voltar a ver, ou – tal como o autor – nunca os tinham visto. Ficaram a faltar outros grandes trunfos – “The Sinking Feeling”, “Good Morning Beautiful” ou “Out Of The Blue (Into the Fire)”, só para citar alguns – que fariam este concerto mais grandioso, mas tais composições têm sido deixadas à parte nesta tourneé. Talvez Matt Johnson não estivesse para aí virado. 

Maybe next time…


terça-feira, 10 de julho de 2018

Christina Aguilera - Liberation | Album Review

Aviso à navegação: esta review está longe de ser imparcial. :P


Finalmente chegou o tão aguardado oitavo álbum de estúdio de Christina Aguilera! Como uma das minhas artistas favoritas de sempre, desde o Stripped (que ouvia, cantava e sabia de cor de trás para a frente, aos 12 anos de idade, e ainda hoje, aos 28, é dos meus álbuns de eleição e não dispenso cantar uma boa “Walk Away” com ela), não o ouvi de imediato assim que saiu, mas nas últimas duas semanas não tenho ouvido outra coisa. Tinha de o conhecer ao detalhe!

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Para mim, o melhor álbum dela foi mesmo o Stripped e ainda não foi este seu mais recente trabalho que tirou o outro do primeiro lugar no pódio. Também adorei o Back to Basics mas, depois, o Bionic e o Lotus foram uma regressão. Nunca me convenceram a 100%, por mais que tentasse. Então, a expectativa era alta para este novo trabalho – Liberation – mas sempre com um pé atrás.

Surpreendeu pela positiva, mas ao mesmo tempo, deixou um pouco a desejar em alguns aspectos. Há músicas que amo e outras que não me dizem nada (e, ainda, uma que detesto mesmo). Mas de um modo geral, gostei muito deste álbum, só acho que tem poucas músicas. 15 músicas, em que 4 são intros; então, só dá 11 músicas completas. Chego ao fim do álbum com vontade que houvesse pelo menos mais 3 ou 4.

Mas antes de ir já para o que falta no fim, comecemos pelo início!

Liberation

Interlude bonito, mas é só isso (já foi feito, já foi ouvido, está uma introdução bonita mas não passa muito disso; gostava que tivesse mais a voz dela, em vez de ser só instrumental – tipo o interlude Love Embrace, por exemplo).


Searching for Maria & Maria
Incluo estas duas faixas numa só, visto que a primeira é o interlude da segunda. Maria reflecte o sentimento de Christina (cujo segundo nome próprio é Maria) de se ter perdido de si própria ao longo do tempo. No Twitter, a artista partilhou que “Maria is a homage to the lost side of herself”. Enquanto que, em Stripped, a ideia que imperava era a de ser ela mesmo enquanto artista (contrariando o ter começado a sua carreira ao vender a sua alma), ao longo da sua carreira acabou por se perder um pouco e agora procura novamente o espírito dela. Recorrendo à personagem de Maria do filme The Sound of Music (A Música no Coração, em português), utiliza-a como uma metáfora para uma versão mais jovem e inocente de si mesma, reflectindo sobre o impacto que uma vida sob a luz dos holofotes teve sobre ela, trazendo uma espécie de crise de identidade provocada pela fama.

All my life, wouldn't give up
Was too young to know the difference
How did I get so low?
When did I turn so cold
Inside of my own mind, I believe my own lies
I'm facing the mirror

Where, where, where is Maria?
Why, why, why don't I see her?
I, I just wanna see her
Why, why, why don't I see her?
I, I just need to see ya, Maria


Definitivamente, um momento introspectivo. Em termos sonoros, na minha opinião, é uma das melhores, senão mesmo a melhor faixa do álbum. É completa em todos os sentidos, e em certos momentos até me remete um pouco para a sua faixa Mercy (do álbum Back2Basics), com alusões a um ser divino e a uma espécie de salvação (“Oh, my lord / Can you take away this heavy load? / I can't carry it anymore / I'm callin' an angel, where is my saviour"). 

Em termos de voz, nem vale a pena destacar muito mais que, para mim, é a melhor voz pop de sempre. Algo que está bem presente no grito quase de revolta dela na bridge "Can you hear me calling? My whole world is falling!".

Dificilmente alguém a conseguirá suplantar neste campo. A voz dela é simplesmente per-fei-ta. Sem qualquer imparcialidade da minha parte! :P

Sick Of Sittin'

Aqui está a única música deste álbum que simplesmente não gosto nada. Numa tentativa de ter uma Fighter neste álbum também, mas Sick Of Sittin' não chega aos calcanhares de Fighter. Então, não tendo nada de bom a dizer, não direi mais nada...

Dreamers

Mais uma intro, com diversas vozes de crianças a dizer o que querem ser quando crescerem. Achei fofo, mas só isso. Não é uma música. Faz sentido, though, preceder a faixa seguinte...

Fall in Line

E duas rainhas juntaram-se e fizeram magia, nesta canção em conjunto com a não menos diva Demi Lovato! Outra faixa que, para mim, é das melhores do álbum. O movimento #MeToo está aqui bem presente, com uma mensagem bem forte de empoderamento feminino – assim, no seguimento de Dreamers, Aguilera e Lovato cantam a plenos pulmões que não foram feitas para simplesmente ficarem “na linha” (“I wasn’t made to fall in line”). Um incentivo a que corramos atrás dos nossos sonhos.

Ainda que Demi seja, também ela, uma pop star de excelência, nesta música a voz de Christina claramente acaba por dominar bastante. Lá está, dificilmente alguém suplanta a rainha Christina. E eu gosto imenso da Demi, também.

Right Moves

Depois de um início de álbum bem introspectivo, surge uma faixa bem mais light, com uma vibe meio hazy e com muitas influências reggae. Um pouco como "Get high on the beach" de Lana del Rey. É uma música girinha, mas que fica longe de me deslumbrar.

Like I Do

Esta foi amor à primeira audição. Aquele início bem prolongado, aquela vibe badass que eu gosto tanto nela, o facto da voz dela só entrar após o primeiro minuto completo e ser uma lufada de ar fresco. A referência ao grande Marvin Gaye e a sua tão famosa música “Let’s Get It On”. A voz dela utilizada de forma doce mas fierce ao mesmo tempo, as estrofes em rap de GoldLink, aquela batida constante, aquele sintetizador ousado. É uma música extremamente bem conseguida, do início ao fim, completamente viciante – daquelas que oiço em repeat, repeat e repeat sem me cansar!

Deserve

À semelhança de Masochist (que vou falar mais à frente, mas que referencio agora pois são duas faixas que, a meu ver, são equiparáveis), Deserve é uma balada eletrónica minimalista. Nada de extraordinário, mas bonitinha, catchy, que fica no ouvido. A-doro o efeito da voz dela nesta faixa.

Twice

Absolutamente uma das melhores faixas deste álbum. Com um início em acapella que me faz arrepiar sempre, começa o piano e as lágrimas querem rolar. Nem consigo descrever o quanto esta música me toca, a sério. A primeira estrofe, só a voz dela e o piano, e finalmente o refrão, em coro. A letra, extremamente triste e angustiosa, de quem “encontrou o preço do amor e perdeu a cabeça”. Continuo a achar que é nas baladas que Christina é melhor. Aquela voz tão suave quando tem de ser, e tão cheia e powerful quando tem de ser também. Mesmo só em acapella esta música seria fabulosa. Não adoro, AMO!

I Don’t Need It Anymore

Outra intro, só em acapella, e em coro. A line “I Don’t Need It Anymore” já tinha sido incluída na faixa Sick Of Sittin' mas escusado será dizer que, para mim, fica bem melhor neste interlude :P

Accelarate

Christina trying to be 2018. Well, she tried and she did it. Aqui está uma faixa extremamente atual mas que, a meu ver, não foi um tiro certeiro para ela. Bom, tenho mixed feelings! A primeira vez que ouvi na rádio, pensei, “Isto é a minha Christina?”. Muito básico. Gosto do embalamento e da melodia da estrofe “I be with my ladies you can find me there / Try to play us, we gon' start a riot up in here”, gosto (bastante) da bridge em rap de 2 Chainz, gosto muito da segunda bridge com aquele “Uh Uh Uh” básico e sintetizadores a acompanhar e adoro o final (os últimos 20 segundos).
Mas detesto a voz meio drunk do Ty Dolla $ign ali pelo meio da voz dela, acho a música pouco melódica, não acho piada ao refrão e acho a letra muito básica. Portanto... Ok, é um hit de rádio atual com alguma piada, mas fica-se só por aí. É que ela é capaz (e como o mostra noutras faixas deste álbum) de muito melhor.

Pipe

Sexy do início ao fim. Muito smooth, muito RnB, muito aliciante. Aquela batida constante e deliciosa. Não é das melhores, though! É das poucas canções em que Christina não puxa pela voz, mantendo um registo sempre estável e muito suave.

Masochist

Como já tinha referenciado mais acima, equiparando a “Deserve”, outra balada eletrónica. Desta feita, com uma letra que remete para a submissão dela em se deixar dominar por alguém que a magoa, culpabilizando-se por isso, sendo assim, some kind of masochist. “Cause loving you is so bad for me, but I just can’t walk away”.

Em termos de letra, sempre que oiço esta música lembro-me da sua icónica (e uma das minhas favoritas do álbum Stripped) música Walk Away. Parece ser uma constante, na vida de Christina, o dilema de estar em situações dolorosas das quais não consegue sair, não é? :P

Unless It’s With You

Mais uma que está no meu top 3 de melhores faixas deste álbum. Esta canção é, simplesmente, perfeita, para mim.

Em termos de letra, e apesar de ser na sua generalidade bastante “cliché” em termos de cheesyness de uma lovesong, gosto do twist do título e do final do refrão: “Cause I don’t wanna get married, unless it’s with you, unless it’s with you”. Podia ter dito simplesmente “I only wanna marry you”, mas inverteu a letra para passar a mesma mensagem.

A voz dela aqui, mais uma vez, completamente flawless. O que para muitos é “gritaria” (e compreendo), para mim é a melhor voz pop do mundo a manifestar-se em todo o seu esplendor.

E os coros e todo o ambiente de balada pop romântica dos anos 90 (em muitas coisas me faz lembrar músicas da Mariah Carey, por exemplo).

De todas as músicas, esta é a que já ouvi mais vezes. Para aí umas 3748.

Unless It's With You é um fim perfeito para este álbum, mas fico sempre com aquela sensação de que faltam mais algumas faixas. Está demasiado curto, o álbum.


Posso dizer que Liberation é, a partir de agora, o meu segundo álbum favorito de Christina. Gosto menos do que o Stripped, mais mais do que o Back2Basics - os 3 melhores álbuns dela, na minha opinião. Continuo a ficar deslumbrada com a voz dela (oiço tanto e canto tanto, que tenho tics de voz dela!!!). Ela continua a arrepiar-me e até a chorar (neste caso, com a faixa Twice).

Amava que ela viesse dar um concerto e Portugal e nem olharia ao preço do bilhete. Se ela vier a algum país da Europa, sou bem capaz de voar até lá só para a ver ao vivo! Nunca vi!


terça-feira, 3 de julho de 2018

Rock in Rio Lisboa 2018 | Katy Perry – Um mundo popsicle no parque da Bela Vista

Review do concerto para o site Echo Boomer.
Autoria: Cláudia Silva

Ainda que o slogan do Rock in Rio Lisboa seja “A cidade do rock”, a edição de 2018 claramente ficou marcada pelo Pop. Foi um dos géneros predominantes do cartaz principal e, depois de Demi Lovato, Bruno Mars, Haille Steinfield e Jessie J, o último dia do festival termina em grande com a atuação de Katy Perry. 



Com um total de 23 músicas e nada menos do que seis mudanças de roupa (cada outfit mais extravagante que o outro), a artista mostrou que, para a sua primeira vez na versão portuguesa deste festival, dedicou-se à preparação do show e não se mostrou nada menos do que exuberante. Uma autêntica pop star. 

O concerto abre com um snippet de um tema do novo álbum, Witness, em que Katy surge por detrás de uma nuvem de fumo branco. Desafiando o público desde um primeiro momento, com a pergunta “Will you be my witness tonight?”, segue para outro tema do novo álbum, “Roulette”, com uma outra provocação, “Will you roll the dice?”. E chovem, sobre o público, confettis com as formas dos naipes de um baralho de cartas. 

Foto: Agência Zero

Se começa o seu concerto com provocações, continua com uma vibe meio obscura, meio sensualizada, com o tema “Dark Horse” – mostrando aqui o lado badass de Katy (que, usualmente, tende a ser mais doce, e cotton-candy-like). De um modo geral, pode-se dizer que Katy é uma artista versátil, encarnando várias personagens, vários estilos tanto visuais como musicais, e isso foi transposto para este concerto. Temos como exemplos clássicos o teenage pop-rock, meio revoltado (com temas como “Part Of Me”) e a versão mais dance eletrónica e muito popsicle pop como “Chained to The Rythm”, “Last Friday Night” e “California Girls”. O concerto foi completo, e até teve direito a uma mascote (muito fofa!) em forma de tubarão durante a música “Teenage Dream”. E, claro, ao longo de toda a atuação, acompanham Katy performers de dança, com outfits extravagantes que tornaram o espectáculo visualmente mais rico. 

O seu primeiro hit “I Kissed a Girl” surge exatamente a meio do concerto e é um momento de grande euforia, sobretudo porque neste tema a artista pousa sobre si uma bandeira arco-íris, símbolo da causa LGTB – passando uma mensagem importante e atual, de inclusão, tolerância e aceitação. Katy sabe que tem influência sobre as camadas mais jovens e utiliza a sua popularidade para promover princípios importantes. Foi uma atitude de louvar e aplaudir. Aliás, ainda que possa ser uma “moda”, a verdade é que muitos artistas hoje em dia utilizam a sua influência para defender mensagens importantes; Jessie J, que pisou o palco minutos antes de Katy, também havia passado ao longo do seu concerto algumas mensagens de auto-amor. 
Foto: Agência Zero

Outro momento de grande euforia foi o famoso “Hot n’ Cold”, no qual a artista surge vestida com um painel digital no peito que vai mostrando as palavras “Hot” e “Cold“. Aproveitando o facto de ter ascendência portuguesa (um dos seus tetravôs é dos Açores), cria um momento de interação brutal com o público, questionando como se dizem estas palavras em português; depois de, em uníssono, todos dizermos “quente” e “frio”, a cantora repete as palavras com um sotaque quase perfeito, tudo isto antes de começar a cantar. 

O concerto contou, ainda, com bastantes temas do seu recente álbum – “Dejá Vu”, “Power”, “Into Me You See”, “Bon Appetit” (esta, com direito a uma pequena mescla com “What Have You Done For Me Lately” de Janet Jackson, em jeito de tributo) e ainda “Pendulum” como uma das músicas do Encore. Nota-se um crescimento, um amadurecimento evidente de Katy enquanto artista, neste seu último trabalho, em comparação com os anteriores. Se, antes, Katy era muito teenage-highschool-pop, neste último álbum a artista revela, aqui, um lado mais obscuro, e com uma certa influência futurística e tecnológica (talvez o tema também ele comercial “Swish Swish” seja o que mais destoa desta vibe geral do novo álbum, regressando às suas origens mais pop e catchy); ainda assim, continua na linha pop, sendo referenciado pela imprensa como Futurepop – uma junção de synthpop com influências de trance. 

Porém, não foram as novas músicas que mais mexeram com o público, foi sim, com os êxitos mais antigos que o pessoal mais vibrou. “ET”, “Wide Awake” e “Roar” – cantada a plenos pulmões, pela Katy e por nós! – e “Fireworks” para o último encore, trouxeram nostalgia aos fãs que a seguem desde sempre. 

E foi com “Fireworks” e, mesmo, com fogo-de-artifício, que terminou mais uma edição deste grande festival.