sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Alex Page - Your Disorder |


Qual é a tua desordem? O teu “distúrbio mental”? O que te perturba e inquieta?
(já paraste para pensar nisso?!)

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É essa a questão que, em tom provocativo, quer Alex Page deixar para o ouvinte reflectir...

Falo de Your Disorder, primeiro álbum de estúdio de Alex Page, banda de pop-rock alternativo oriunda de Almada, composta por Alexandre Matias (vocalista), Cláudio Pinto (baixista) e Ricardo Mendes (baterista). Acabado de sair, em janeiro de 2019, Your Disorder caracteriza-se por ser um álbum conceptual que, através de sonoridades e melodias originais, reflecte e retrata através das mais variadas ideias, a desordem interior que todos temos. Todos, sem excepção!

Adequado às tendências atuais do panorama musical, Your Disorder é composto por 9 temas (sendo o primeiro deles um poema declamado em português), cantados em inglês pela fabulosa voz de Alexandre Matias mas com uma alma bem, bem portuguesa!

E é com imenso orgulho que escrevo hoje a review deste que é o primeiro álbum de estúdio de um grande artista mas, sobretudo, de um grande amigo meu! O culminar de um trabalho dedicado de anos e fruto de uma paixão como nunca vi!

Aqui fica a minha opinião sobre cada tema, numa perspetiva extremamente pessoal e sobretudo de quem assistiu aos primórdios de alguns destes temas.

Poema VIII
O álbum começa com a declamação de um poema (escrito por mim quando tinha uns 15 ou 16 anos), e declamado pelo reconhecido ator Vítor de Sousa. Este poema fala sobre como somos tudo e nada, como vivemos tudo e nada, e como este tudo e nada é efémero tanto quanto a vida em si - fruto de uma desordem interior que se fazia sentir já desde aquela tenra idade. É, por isso, um poema que reflecte a mensagem global que Alex Page pretendem passar com este álbum. Todos temos desordem interior, só difere quando nos apercebemos disso e como lidamos com ela ao longo da vida.

Fake Repressed Desires
O álbum começa com um tom extremamente fatalista – não necessariamente no mau sentido. Fez-me lembrar Evanescence e eu fui fã desta banda. Gosto muito do início quase em acapella, a voz do Alexandre apenas acompanhada do som do vento, de um sintetizador e de um violino. Mas adoro ainda mais que, ao fim de um minuto e meio (e quase como que um alívio por estarmos a implorar por isto mesmo), entrem o resto dos instrumentos, a encher a música, tornando-a mais plena. De destacar a influência de Lana Del Rey em toda a aura da canção, desde a melodia em si, ao sentimento de fatalismo, e até mesmo na bridge, com a letra “Vodka on the rocks / All these bikini models / All the vanilla profit / A sweet taste of pies and ice”.

É uma das faixas que mais gosto no álbum 😊

Framed Pictures

In a more uplifting and playful tone, chega Framed Pictures. Com uma linha de sintetizador constante e que acaba por ser a baseline caracterizadora de toda a música, a melodia extremamente catchy do refrão e das bridges faz com que este tema fique, mesmo, no ouvido. No meio de toda a euforia, a guitarra elétrica e os instrumentos de sopro (saxofone, trompete e trombone) vão dando o ar de sua graça, como quem diz, olha, também estou aqui.
Framed Pictures foi o 1º single de lançamento do disco e foi uma excelente escolha, na minha opinião! É de facto um tema cativante, que nos deixa a cantarolar após ouvi-la um par de vezes.

The Complex
Esta música é esperança. É o newcoming. É uma nova Era. É renascer! É como que uma lufada de ar fresco.

Esta música, para mim, é a segunda melhor (já vão saber qual é a primeira melhor) do álbum e atrevo-me a equipará-la, em algumas partes, a um tema que poderia ter sido escrito pela Regina Spektor. O refrão é completamente libertador e a bridge final, essa, um grito de revolta delicioso de se ouvir. E sentir. Extremamente bem conseguido, este tema tem tudo o que se quer de uma música pop alternativa: faz-nos sentir que, simplesmente, faz sentido (redundância propositada).

Looking
Com um início muito 80’s, mas ao mesmo tempo algo futurista, este tema é muito carismático, desde o início ao fim. Adoro o som das palmas no refrão, remetendo-me imediatamente aos Arcade Fire, outra banda que aprecio bastante (ou q.b.). No geral, Looking é mais um tema bastante catchy e bem conseguido.

Morphine
O meu tema absolutamente fa-vo-rito deste álbum! É sedutor, delicado; acaricia-me a alma e fá-la dançar.

A-dorooooo a cadência das notas de piano, o cintilar do xilofone, a voz do Alexandre a arrastar-se numa melodia enrolada e enebriada.

Se costumo quebrar a escala para músicas que gosto muito (!), dentro do álbum Your Disorder, Morphine é definitivamente um 11/10.

Well, Well, Well
Com a participação da voz suave mas garrida de Sofia Lisboa, este é um tema que surge subtil e vai crescendo em camadas – começando com um sintetizador meio corky, sendo complementado com um baixo e um piano bem marcados e constantes, uma bridge a solo, finalmente culminando num crescendo musical com uma agradável melodia em saxofone. A forma como as vozes de Sofia e Alexandre Matias se conjugam entre si oferece uma sensação de harmonia e até mesmo um quentinho no coração.

Fazem ainda parte desta primeira compilação de originais, os temas Black Grace e La Nuage. Confesso que foram os únicos dois temas que pessoalmente não me agradaram particularmente.


Mais uma vez, dou os meus mais sinceros parabéns Alex Page que, com muita dedicação e paixão, tornaram este primeiro disco possível, num país como o nosso em que o reconhecimento pelas diversas áreas artísticas é cada vez mais difícil! Conseguiram e conseguem fazer um trabalho de qualidade e que coloca a música nacional num patamar cada vez mais elevado.

Aconselho muito a comprarem o álbum online (aqui), pois terão acesso aos videoclips conceptuais realizados especificamente para cada tema. Vale muito a pena!




sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Brit Floyd na Altice Arena – Um espetáculo que une gerações

Crítica escrita originalmente para o site Echo Boomer


A cópia é a melhor forma de elogio, já dizia o ditado popular. Mas é mais com o intuito de prestar um tributo, e não tanto o de copiar (pelo menos não com a conotação negativa que pode ser conferida ao termo), que Brit Floyd, banda-tributo, leva os grandes hits dos irrepetíveis Pink Floyd a palcos um pouco por todo o mundo.

Este ano, para celebrar os 45 anos do inesquecível álbum The Dark Side Of The Moon – vendeu mais de 45 milhões de cópias e é considerado como um dos melhores álbuns de rock progressivo alguma vez produzidos – o palco do Altice Arena, em Lisboa, recebeu uma recreação à altura do acontecimento. Um acontecimento que é nada mais, nada menos, que o último concerto desta tour dos Brit Floyd, depois de terem passado por 154 palcos diferentes. Ainda que o nome da tour seja “The Dark Side Of The Moon“, homónimo ao álbum que pretende homenagear, esta experiência de duas horas foi uma autêntica e deliciosa viagem no tempo e uma (re)visita a muitas canções, presentes em diversos álbuns de estúdio dos icónicos Pink Floyd.

“Shine On You Crazy Diamond” é o tema que faz as honras de abertura de um espetáculo que prometia e que, desde logo, começou a cumprir. O ambiente envolto em mística, os acordes das guitarras num enrolar delicioso a ecoar pelo espaço da arena, como que deixando um rasto atrás de si, as melodias nostálgicas e orgânicas – era isto mesmo que a alma estava a pedir; estavam reunidas as condições para aquecer uma noite bem fria.

“É ótimo estar de volta”, anunciou o vocalista e diretor musical, Damian Darlington, seguido de um “Obrigado” com o “r” bem enrolado, despertando o público do estado de quase transe no qual o tema anterior o tinha deixado. Para aligeirar um pouco o ambiente, segue-se “Arnold Lane”, no qual o saxofonista Ryan Saranich merece um destaque pela sua brilhante prestação a solo. Não tarda muito até que o ambiente seja de novo envolto em misticismo e que sejamos engolidos pela envolvência absoluta que caracterizam os temas de Pink Floyd – como “High Hopes” e “Sorrow”.

“Another Brick In The Wall” é, a seguir ao tema de abertura, o segundo momento alto da noite. Afinal, quem nunca cantarolou “We don’t need no education!”? Um clássico, pejado de rebeldia, e que contou com um brilhantíssimo solo de guitarra.

Em “Mother”, outro dos temas mais conhecidos, é possível ver como algumas letras da banda quase se tornaram “slogans”, com todo o público a cantar “Mother, should I run for president? Mother, should I trust the government?” – e com Damian a cantar um “Não” ressonante como resposta a cada pergunta. A propósito deste exemplo de uma letra que se tornou quase simbólica, é de revelar a natureza sociopolítica que caracteriza as composições e as letras de Pink Floyd, presente em temas como “A Great Day For Freedom”, “Southhampton Dock” e “Dogs Of War” – o que mostra que tudo isto é muito mais do que (muito boa) música ou espetáculos com efeitos visuais espectaculares e luzes de lazer. Pink Floyd é História em forma de música.


Fotos: Ritmos&Blues

A sequência “Speak To Me/Breathe” e “Time” foi uma feliz escolha de alinhamento que, entrelaçadas, num continuum psicadélico, compreendem em si toda a magia do álbum The Dark Side Of The Moon – com a devida salvaguarda para a divertida e rock n’ roll “Money”, já previamente tocada.

“The Great Gig In The Sky” surge, num grito (literalmente) de (des)esperança e resignação perante a efemeridade da vida, cuja única letra é falada no início, “I’m not afraid of dying. Anytime I’ll do, I don’t mind. Why should I be afraid of dying? There’s no reason for it, we gotta go sometime”. A vocalista Angela Cervantes esteve irrepreensível na sua prestação. Uma performance transcendente.

Mas não há tréguas, ainda. “Have a Cigar”, “The Final Cut”, “Wish You Were Here” (denunciada desde um primeiro momento com o inconfundível acorde de guitarra) e “Confortably Numb” (num intercalar entre momentos mais contidos e momentos de explosão), foram outros três grandes pontos altos da noite, sendo, igualmente, três dos temas mais acarinhados pelo público.

Todo este repertório foi acentuado com os temas do encore – uma “Brain Damage” que conflui com uma “Eclipse”, num autêntico culminar de sensações fortes; e, por fim, “Run Like Hell”.

A loucura em forma de rock. “Até faz mexer o coração!”, dizia a pessoa que me acompanhava nesta noite.

Ainda que tenha sido um concerto cheio em todos os sentidos, ficaram a faltar dois temas essenciais: “Us & Them” e “Any Colour You Like”.

Eis um espetáculo que une gerações. Fãs de 70 anos, que assistiram aos concertos originais da banda, e jovens de 20 anos, que estão agora a descobrir pela primeira vez as letras inventivas e filosóficas de Roger Waters, partilham o mesmo espaço.

No topo do fenómeno melódico e lírico dos temas de Pink Floyd, a arte exibida por cada vocalista e instrumentalista foi impecável. Através das luzes e visuais cativantes, chegamos quase à utopia musical. Pink Floyd e Brit Floyd são lembretes de como a música pode ser omnipotente na sua habilitade de transportar e conectar. Unir, firmar e imortalizar. No final de contas, é a coisa mais próxima que temos à magia, e este espectáculo relembrou-nos bem disso.

E é isto que, verdadeiramente, define uma banda como sendo intemporal.


quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Tribalistas – 15 anos depois, é como se nunca tivessem parado de criar música

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Admitidamente impreparados, foi 15 anos depois do lançamento do seu primeiro álbum que a banda de música pop brasileira, Tribalistas, se apresentou pela primeira vez ao vivo em Portugal. Impreparados, pelo menos assim o admitem em várias entrevistas, os três artistas que compõem este trio, confessando que o primeiro álbum surgiu de forma totalmente espontânea e que, sem qualquer expetativa, vendeu qualquer coisa como cinco milhões de discos. Fazer música sempre foi algo espontâneo, não planeado, e fruto de uma paixão partilhada pelos três.

Corria o ano de 2003 quando o single “Velha Infância” chegou e veio para ficar, apaixonando corações do público português – para nunca mais ser esquecido. Este é, no entanto, apenas uma das 56 músicas que Marisa Monte, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes compuseram, sempre – e isso é notório – com grande genuinidade, paixão e amizade que os une há 25 anos e que vai bem para além da música. Em 2017, o trio já havia voltado a apresentar novo trabalho, com o lançamento de novo álbum, homónimo ao primeiro: simplesmente, Tribalistas.


Embora a sonoridade seja consistente entre os dois álbuns – apesar do tempo que entre eles dista – é de destacar a natureza mais sociopolítica dos temas abordados no álbum mais recente, em contraste com uma mensagem mais positiva que caracteriza o primeiro, diferença esta que resulta das diferentes realidades que o país atravessava na altura e atravessa agora.

Ainda assim, é com essa tal naturalidade que a banda aborda temas sérios de forma leve. É fluidez o adjetivo que melhor caracteriza as melodias das suas canções, num mix perfeito entre música popular brasileira, bossa nova, pop e samba. Foi com entusiasmo que o concerto abriu com os temas “Tribalismo” e “Carnavália”, ambos do primeiro álbum, numa explosão de energia e boa disposição, tão natural dos nossos irmãos brasileiros! “Agora é a nossa vez de colonizar vocês”, bem avisou Arnaldo Antunes logo após a terceira atuação, “Um Só” (esta, já do seu trabalho mais recente, de 2017). E colonizaram… Com espírito de festa!

E é com muita, muita graciosidade que chega suavemente em temas como “Anjo da Guarda”, “Um a Um” e “Água também é Mar” (admitido, ao vivo, por Marisa, que este é um dos temas mais “pré-históricos” composto pelo trio ainda antes de surgir o primeiro álbum), numa sonoridade tão reconfortante que podiam perfeitamente ser canções de embalar.

Entre os temas mais atuais, são de destacar “Fora da Memória”, “Diáspora”, “Ânima” e “Aliança” – valendo a pena destacar que é completamente heartwarming e uma delícia para os nossos ouvidos o equilíbrio perfeito e harmonioso entre a voz dos três artistas: a voz suave, como uma brisa do mar, de Marisa Monte; o timbre profundo, como um baixo humano, de Arnaldo Antunes; o tom amadeirado e quente da voz de Carlinhos Brown. Os três, numa harmonia perfeita, numa só voz.

Num concerto já, por esta altura, completamente impregnado de nostalgia, e para ajudar ainda mais, segue-se o tema “Velha Infância” – sim, aquele, que ficou eternizado como das baladas mais bonitas da década de 2000. Não tiremos mérito algum, porém, aos igualmente encantadores e românticos temas “É Você” e “Carnalismo”. Com estas três de rajada, quem ainda não chorava só podia ter uma pedra no lugar do coração. 


Não foram descurados vários temas apenas de Marisa, nomeadamente a muitíssimo conhecida “Amor I Love You”, a poética “Vilarejo”, a pejada de tons western “Infinito Particular”, a característica samba “Universo ao meu Redor”, a romântica “Depois” e a doce “Até Parece / Não é Fácil”. Mais doce ainda é “Lá de longe”, que chega e passa sorrateira, contrastando com a crua “Trabalive”. 



25 músicas e duas horas de concerto depois, havia ainda um hit em falta. O trio não podia desiludir, e não desiludiu. “Já Sei Namorar”, pois claro, estava (finalmente) ali para fazer todo o mundo cantar, dançar e abraçar muito! O “uh uh uh uh” característico ficou a ecoar por todo o pavilhão do Altice Arena… Até que tudo termina no clímax do encore, com a repetição dos temas “Velha Infância” e, tal como havia aberto o concerto, “Tribalismo”. 

Preparados ou não, com mais ou menos tempo entre si, o que é certo é que, quando Carlinhos Brown, Arnaldo Antunes e Marisa Monte se juntam para compor, a humanidade agradece!


segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Best Youth na Timeout Market Lisboa: Como o synth-pop nos conquistou


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Imagem: Público

Crítica escrita pelo João Cunha para o site Echo Boomer.

O Timeout Market Lisboa recebeu os Best Youth na passada sexta-feira para uma noite onde o synth-popreinou. O mote foi a apresentação do novo álbum Cherry Domino, o segundo longa-duração da banda, lançado digitalmente em junho passado. De notar que entre o álbum de estreia Highway Moon e este distam três anos – entre os lançamentos houve ainda uma reedição desse primeiro álbum no ano passado, com direito a mais duas novas canções -, mas aqui o que interessa é a qualidade.


E é na qualidade que Ed Rocha Gonçalves e Catarina Salinas dos Best Youth primam. Se no álbum de estreia foram alvo de críticas extremamente positivas, a tendência deverá permanecer com este Cherry Domino. A juntar à festa foi também a apresentação de quem os acompanha ao vivo, uma verdadeira nata musical portuense, a saber: Fernando Sousa (X-Wife), Miguel Ferreira (Clã) e Tito Romão (Salto).


A aposta mostrou-se ganha logo à primeira canção: entraram de mansinho com “Feelings”, deste novo álbum, uma mostra bastante clara de que a sonoridade dos Best Youth não mudou, apenas evoluiu, para melhor. Isso mesmo nos confirmou “New Boy New Girl”, canção que se seguiu, onde a presente melancolia nas palavras de Catarina Salinas era envolvida numa canção que podia ser uma lullaby dos anos 80.


A exploração por Cherry Domino continua pela sublime “Nightfalls”, exercício pop onde a voz de Catarina Salinas assenta lindamente no meio do sintetizadores e das drum-machines. O ingrediente que sobressai é, claramente, a facilidade com que as canções do novo álbum nos metem a dançar.


Aproveitando o mote, é-nos apresentado de seguida “I’m Still Your Girl”, single de 2013, a primeira incursão no espólio que os Best Youth criaram antes de Cherry Domino seguida de “Nice Face”, fruto da colaboração com os We Trust no grupo There Must Be a Place, canção sobejamente conhecida e ouvida do púlbico português. Por esta altura do concerto, os Best Youth já nos tinham conquistado sem qualquer sombra de dúvida: a voz sussurrante e sexy de Catarina Salinas conjugava-se na perfeição com as composições de Ed Rocha Gonçalves e a prestação do grupo era cativante.


A setlist foi muito bem escolhida e, conscientemente ou não, o concerto foi crescendo em intensidade perante os temas apresentados. Seguiu-se “Part of the Noise”, uma colaboração brilhante com Moullinex no novo álbum e uma forma nos levar de volta ao synthpop (e de nos pôr a dançar com facilidade, já agora!), a fabulástica “Red Diamond” e “Black Eyes” – ambas do Highway Moon – e chegamos a “Hang Out”: tempo para uma breve menção, por parte da banda, ao primeiro single da carreira, que teve várias versões até àquela que nos foi aqui apresentada. Seguiram-se “Sunbird” e “Renaissance”- inclusões na versão reeditada de Highway Moon – bem-dispostas e exemplos de um pop descomprometido, mas extremamente bem conseguido, para fechar, por ora, o baú das memórias, pois o mote (ainda) era o álbum Cherry Domino.


A entrada de “Highlights” releva bem a evolução dos Best Youth na construção de canções pop. As referências e lembranças à tão-presente década 80 não será motivo para minorizar a obra dos Best Youth, antes pelo contrário, é motivo de orgulho tal como nos mostra “Coincidence”, a balada que trouxe, por breves momentos, a calmaria ao público do Timeout Market.


Mas o tempo escasseava; “Desintegrate” – tema que fecha o novo álbum – com uma tonalidade subliminarmente jazzy, mas altamente eficaz, e onde a voz de Catarina Salinas subtilmente nos guia num refrão viciante fechou a sequência de novidades.


Para o final ficaram os trunfos, as que faltavam ouvir – as que queríamos ouvir! – primeiro o single que antecedeu Cherry Blossom: o magnífico “Midnight Rain”, prova brilhante do synth pop dos Best Youth, desde os sintetizadores reminiscentes aos New Order aos acordes da guitarra límpida de Ed Rocha Gonçalves, que podiam lembrar os The Sundays. A fechar, a mais-do-que-aclamada “Mirrorball”; peça-chave do primeiro álbum e, sem dúvida, a mais aguardada. Não houve dúvidas: a noite tinha sido ganha. Pelos Best Youth e por nós. E queríamos mais.

Ed Rocha Gonçalves e Catarina Salina, muito envergonhadamente, disseram-nos que não tinham preparado encore, mas ainda ofereceram “When All Lights Are Down”, o final de um concerto que não serviu apenas para apresentar o novo álbum dos Best Youth, mas para os (re)confirmar como um dos projetos de música pop made in Portugal mais interessantes desta década.

Será seguro aconselhar os Best Youth a preparar encores doravante. Diz que é preciso.



sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Album Review | Ariana Grande - Sweetener

A Ariana Grande foi uma descoberta relativamente recente para mim (não daquelas all-time-favourite-divas como a Christina Aguilera que oiço quase desde a infância), com o álbum Dangerous Woman, acerca do qual inclusivamente já tinha feito uma crítica aqui. Os outros dois álbuns que ela tinha lançado antes deste, confesso, não prestei muita atenção.

Apesar de ser uma descoberta recente, Ariana prendeu-me desde a primeira audição, com a sua doçura, que é algo que, na minha opinião, a caracteriza; até mesmo nos temas mais "agressivos", ela continua doce sempre. E só de ouvir a voz dela, confesso, apetece-me abraçá-la!

Então, Sweetener não é um título perfeito para o novo álbum dela?! É, sim senhora :D


Ariana Grande - No Tears Left To Cry press shotSweetener é, então, o quarto álbum de estúdio da artista, o primeiro após o acontecimento traumatizante que foi o ataque terrorista que decorreu durante o seu concerto em Manchester, com uma mensagem de não-rendição às tragédias e de "a vida continua", com o poder restaurativo da música.

Não acho que este trabalho esteja ao mesmo nível do Dangerous Woman. Ainda assim, está muito bem conseguido!

Com um álbum pejado de uma alegria discreta (low-key joy) constante, Ariana surpreende-me com o domínio vocal que tem, sendo capaz de passar rapidamente de um registo mais forte para um quase suspiro. E, neste aspecto, consigo compará-la à grandiosa Mariah Carey. Diria até que a Ariana é a Mariah Carey deste século, em muito me faz lembrar (as oscilações vocais, a doçura!)

Sweetener é um álbum dreamy e cheio de nuances deliciosas. Começa com uma faixa em acapella, com a sua inconfundível voz, Raindrops (An Angel Cried), seguindo-se Blazed, faixa que já não me chama tanto.

E a propósito de Blazed, que foi produzida por Pharrel Williams, é importante destacar que 6 faixas deste álbum contaram com a colaboração/produção/escrita do artista, marcadas por idiossincrasias funk-lite que elevam as estruturas musicais mais convencionais do disco. Em Blazed, como já anteriormente referido, e REM, por exemplo, detectamos logo a presença de Pharrel.

Escrita por Beyoncé, esta é uma das minhas faixas favoritas! Tão dreamy, tão joyful, tão leve e deliciosa. As diferentes texturas e camadas em tom de quase brincadeira, os tons gospel, a execução quase rap de Ariana. Esta música fala de sonhos e de não querer acordar deles.

(Infelizmente, a faixa REM ainda não está disponível para audição na internet)

Segue-se God Is a Woman, que é já um dos hits mais atuais!

Cheia de energia feminina, Ariana aborda novamente o tema da Mulher - no álbum anterior, com o single "Dangerous Woman", e neste, com o single "God is a Woman".

God is a Woman é um tema desafiante, que acaba por misturar religião com sexualidade, uma vez que está subjacente que uma experiência sexual é algo divino, e subvertendo o "pecado do sexo" como uma sugestão de que o mesmo tem propriedades redentoras, ao invés do que está estabelecido na religião.

A faixa é de empoderamento, dominância feminina e liberação sexual. Ariana canta a sua rebelião contra a expectativa, "And I can be all the things you told me not to be", e desafia o status quo de que deus é uma figura masculina e paternal.

A faixa homónima ao nome do álbum, Sweetener, volta de novo à onda doce de Ariana, arriscando eu dizer que toda ela tem um certo tom natalício, e com sintetizadores, no refrão, que nos transportam de volta para os anos 90 (algo que tem sido tendência da música comercial hoje em dia, ir reciclar sonoridades que eram populares nesta década). Também, ainda no refrão, a line "get it, hit it, flip it" repetida é verdadeiramente catchy!

Successful e Everytime, faixas que se seguem, muito honestamente não me dizem nada e são pontos fracos deste álbum. Successful é só arrogância e auto-promoção sem qualquer conteúdo.  E Everytime, simplesmente não me convence.

Breathin' é outro dos hits mais atuais, e das principais faixas do álbum. Com uma sonoridade muito expansiva e, na minha opinião, até algo futurista, é muito "anos 2000", transmite-me um feeling altamente imersivo. A-dorooooo, mais uma vez, as passagens vocais repentinas dela, particularmente nesta faixa na line "Time goes by and I can't control my mind".



No Tears Left to Cry surge novamente com um tom futurista e atual, com uma forte mensagem de "I'm over it". Sofreu, chorou, e agora está num state of mind em que já nem lágrimas tem, mas não quer sair desse estado; talvez um estado de nirvana? Um sentimento de descoberta de uma nova fase de felicidade após um período de sofrimento. She's livin' it and she's lovin' it.


Right now, I'm in a state of mind

I wanna be in, like, all the time

Ain't got no tears left to cry

So I'm pickin' it up, pickin' it up (oh yeah)

I'm lovin', I'm livin', I'm pickin' it up



Borderline surge como uma canção que parece que tem pressa de acabar. Tenho mixed feelings em relação a esta faixa! Se, por um lado, adoro aquela combinação sintetizador-batida, por outro lado, há algo na sua sonoridade que me faz lembrar um anúncio de TV. 

Better Off é a balada do álbum, toda ela, lá está, com aquele ar queridinho, tão característico dela. Uma balada eletrónica calma, não das melhores que já ouvi, mas que aquece o coração!




(snippet da faixa)

Goodnight N Go, bem como Pete Davidson, são também duas faixas que não me aquecem nem me arrefecem.

E o disco termina com Get Well Soon, para mim, também uma das melhores faixas! Muito jazzy, muito smooth, transporta-me para um outro mundo, o mundo em que estou a cantar com ela.


(snippet da faixa)

De um modo geral, achei um trabalho extremamente coeso, que se coaduna com e mantém-se fiel à identidade de Ariana (a que ela passa para o público, que me parece ser genuína). Gosto mais do álbum anterior, Dangerous Woman, sem dúvida. Mas Sweetener é, e como o próprio nome indica, sweet mais do que suficiente para já me ter prendido e ser o meu álbum de eleição em repeat desde que saiu!